Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 07/07/2010
ANA PAULA SOUSA
DE SÃO PAULO
No Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP), os quartos de bebê têm recortes de revistas a servir de papel de parede e grades a separá-los do mundo.
Criado para cumprir o direito constitucional à amamentação, esse espaço, ao lado da Penitenciária Feminina, no Butantã, é um lugar que a sociedade não vê.
"Quando descobri a existência do centro, achei uma iniciativa incrível. Depois do filme, já não sei", diz Claudia Priscilla, diretora de "Leite e Ferro". "Que vínculo é esse que só dura quatro meses? O Estado, depois da amamentação, não faz mais nada para manter o laço."
Essa é apenas uma das perguntas difíceis trazidas à tona pelo filme que será exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Paulínia, no próximo dia 16.
"LEONERA"
O sombrio universo das mulheres que têm de conciliar o irreconciliável, prisão e maternidade, foi visto recentemente no filme argentino "Leonera", de Pablo Trapero.
Mas, à parte o tema, nada mais une os dois trabalhos.
Trapero constrói seu mundo pela ficção. E são bem distintas as grades daqui e de lá. Enquanto em "Leonera", elas passam dois anos com os filhos, as brasileiras, raramente, conseguem ficar mais de seis meses com o bebê.
Exala também, de "Leite e Ferro", um fetiche feminino pelo crime que raramente nos é mostrado. Por representarem 6% dos presos do país e por quase não fazerem rebeliões, as mulheres ficam ausentes da representação midiática ou cultural.
Talvez por isso a câmera seja tão sedutora para elas.
"Qualquer um, diante da câmera, tende a criar uma persona, a tentar falar melhor. Elas acabam respondendo a esse imaginário do bandido meio herói", diz Priscilla.
Quem rouba a cena é Luana, traficante apelidada Robin Hood, que namorou Pixote na infância e casou-se com um "157 [ladrão] nato".
Priscilla ouve essas mulheres como, talvez, só mesmo uma mulher pudesse ouvir. "Eu achava que teria muito em comum com elas. Mas não. Viver isso no cárcere é outra coisa. Em alguns momentos, me senti constrangida de ter tido tanto conforto na maternidade."
Após a conclusão do filme, o CAHMP foi transferido para o centro hospitalar do Carandiru. "O CAHMP estava numa situação insustentável, superlotado. Mas, de novo, elas foram para um lugar inadequado", diz Heide Cerneka, da Pastoral Carcerária. "O Estado tem dificuldades de enfrentar esse problema." O cinema o pôs em quadro.
Privação faz mães se voltarem totalmente para os seus filhos
LUCIANA SADDI
ESPECIAL PARA A FOLHA
A maternidade é um processo que inclui a gravidez, o parto e o nascimento do bebê. É momento de crise que transforma a vida e o corpo das mulheres.
A maternidade requer capacidade de atenção e de pré-ocupação, exige total doação da mãe, ao menos nos primeiros meses.
Essa concentração intensa possibilita à mãe entender o que o bebê precisa e permite lhe apresentar as coisas do mundo e a linguagem. Então, surge um dos vínculos mais fortes do universo humano.
Em vários momentos do documentário "Leite e Ferro", realizado em penitenciária voltada para mulheres que deram à luz cumprindo pena, percebemos a identidade de mãe superar a de estar presa.
É que muitas, por conta da privação de liberdade e por estarem num ambiente organizado para cuidar dos recém-nascidos, desenvolvem plenamente as condições para que o vínculo mãe/bebê se realize.
É a prisão que gera a oportunidade única de estarem totalmente voltadas aos filhos; é a prisão que lhes retira, friamente, após quatro meses, a condição tão humana de poder se dedicar carinhosamente aos seus bebês. Ironia do destino, essa é a maior punição.
LUCIANA SADDI é psicanalista e escritora, autora do romance "Perpétuo-Socorro" (editora Jaboticaba)



