Assassinatos de gays, lésbicas e travestis no Brasil em 2008

O Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou os casos de violações dos direitos humanos e assassinatos cometidos contra homossexuais no Brasil em 2008. Atendendo ao pedido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil em Brasília, o GGB disponibilizou os dados que vão compor o Relatório do Congresso Americano com a finalidade de conhecer os casos de violação dos direitos dos homossexuais no Brasil.O Congresso Americano divulga a cada ano os dados sobre abusos, violação e discriminação nos paises que mantém relação diplomática. Discriminação por orientação sexual entra no relatório como abuso social. 

Mais uma das vítimas da homofobia, o professor universitário de filosofia Alessandro Faria Araújo, de 39 anos, foi espancado em fevereiro de 2007 por um grupo de dez pessoas, entre elas duas mulheres. A agressão ocorreu na esquina da Rua da Consolação com a Alameda Jaú, nos Jardins, na cidade de São Paulo, numa área nobre da capital paulista com grande concentração de bares freqüentados pela comunidade GLBTT (Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais). 

De acordo com Luiz Mott fundador do GGB, o relatório cumpre a sua função em fazer a denúncia pública desses casos de intolerância. “Esperamos que esses dados sensibilizem as autoridades constituídas a dispor de mais cuidados para essa população”, diz o ativista. “Essa iniciativa do Congresso Americano é excelente, pena que no Brasil não exista nada equivalente, lastimo” conclui. Somente o GGB faz levantamentos desses crimes no Brasil, auxiliado pelo trabalho individual desenvolvido por poucas organizações do movimento homossexual. Não existem estatísticas oficias sobre crimes contra homossexuais no Brasil.

Os números de assassinatos divulgados merecem atenção, foram 186 homicídios de gays, lésbicas e travestis no Brasil em 2008, sendo 122 homossexuais masculinos (65,7%), 58 travestis (31,1%) e 6 lésbicas (3,2%). Pernambuco é o estado que aparece mais violento, com 27 homicídios (14%), seguido da Bahia com 23 (12%) e São Paulo com 17 (9%).

O Brasil é o campeão mundial de assassinatos de LGBT, seguido dos Estados Unidos e México. Nem 10% dos assassinos são presos e muitos alegam “legitima defesa da honra” para matar o homossexual.

A principal denuncia de impunidade se deu em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, onde 13 gays foram assassinados num jardim público, entre agosto de 2007 e julho de 2008, todos com as mesmas características de execução, com tiros na cabeça, e somente em dezembro de 2008 que a Polícia Civil de SP divulgou a lista das vítimas. Dois policiais estão presos sob suspeita de serem os autores desses crimes.

Os dados podem ser consultados pelo site do Grupo Gay da Bahia:

http://www.ggb.org.br/congresso_dosusa_divulga.html

E também no relatório dos EUA:

www.state.gov/g/drl/rls/hrrpt/2007/100630.html 

 

Matéria da Revista Época de 24/04/2009 - 14:41 - Atualizado em 24/04/2009 - 23:31
A rede educacional brasileira encara os homossexuais, e não o preconceito, como problema
Ana Aranha
No começo do ano, Daniel foi recusado em sete escolas particulares de São Paulo. Ele é transexual, um menino que se sente e age como uma menina. Só conseguiu vaga em uma escola especial, para alunos com alguma deficiência.
Quando era aluno de colégio federal do Rio de Janeiro, Pedro Gabriel Gama fez um protesto na escola contra a falta de água. No dia seguinte, ouviu do diretor: “Isso é coisa de veado!”.
Em uma escola particular de Araguaína, Tocantins, Lídia Vieira Barros brigou com uma aluna que a chamava de “sapatão”. No dia seguinte, Lídia foi mandada à orientação psicológica. A outra, não.
Em Piracicaba, interior de São Paulo, um aluno move ação contra a Secretaria de Educação. No meio de uma aula sobre fotossíntese, no ano passado, o professor se recusou a lhe entregar uma apostila. “As bichinhas não precisam desse material”, disse.
Os quatro episódios narrados acima ilustram um grande problema da rede educacional brasileira: a falta de preparo da escola para lidar com a homossexualidade e os preconceitos que ela provoca. Entrevistas feitas por ativistas gays em seis capitais mostram que a escola é o primeiro ou o segundo lugar no qual homossexuais e transexuais mais sofrem preconceito. E não é só. Duas pesquisas feitas pela Unesco em 2004 ilustram a gravidade do preconceito nas escolas: uma delas, entre os alunos, descobriu que 40% dos meninos brasileiros não querem um colega homossexual sentado na carteira ao lado; outra, com professores, mostrou que 60% deles consideram “inadmissível” que uma pessoa mantenha relações com gente do mesmo sexo. “Há um muro de preconceitos que impede as pessoas de aceitar os homossexuais: eles são promíscuos, não têm família, morrem de aids. Quando se veem diante de um aluno gay, os professores e diretores simplesmente não sabem como agir”, diz o educador Beto de Jesus, da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
Beto de Jesus é um dos coordenadores de um projeto financiado pelo Ministério da Educação para formar professores e ajudar as escolas a lidar com a diversidade sexual de seus alunos. O grupo vai produzir um kit didático para 6 mil escolas. Nele, haverá orientação para diretores e professores e material para os alunos. Como parte do mesmo projeto, estão sendo realizados encontros regionais com secretarias da Educação, ONGs e universidades. A ideia é coletar experiências de sucesso para ajudar a formular uma política nacional para o problema. O grupo também realiza, neste momento, a maior pesquisa qualitativa sobre homofobia nas escolas de dez capitais brasileiras, com a intenção de mapear os principais conflitos e soluções. “As escolas não estão preparadas nem para identificar esse preconceito. Enquanto os professores não podem aceitar que um aluno chame o outro de ‘negrinho’, ‘veadinho’ ainda é considerado brincadeira”, diz Carlos Laudari, diretor da Pathfinder Brasil e um dos coordenadores do projeto junto com Beto.
DUPLA IDENTIDADE
Dani toma notas em seu caderno cor-de-rosa. O menino tem 15 anos e quer ser tratado como menina
O Daniel ou a Dani?
Aos 8 anos, Daniel (o nome foi trocado) espalhava para os amiguinhos do colégio que era obrigado a ir disfarçado para a escola. “Meu pai quer um filho homem e me faz usar essas roupas e esse nome. Mas eu sou menina.” Aos 13, começou a passar base, usar brinco e fazer as unhas. Daniel é transexual, pessoa que nasce com um sexo, mas se sente e age como o sexo oposto. Na escola, pediu a professores que o chamassem de Dani, com pronome feminino. Queria ser “a” Dani. Mas só duas professoras concordaram. Uma semana depois que colocou mega-hair (aplicação de mechas no cabelo), sua mãe foi chamada à escola. Os pais de uma colega de classe ligaram indignados: “Não queremos nossa filha perto dessa aberração”. A solução encontrada pela diretora foi proibir a produção: o cabelo deveria estar preso e nada de maquiagem, brinco ou esmalte. Dani continuou a usar esmalte branco e brincos pequenos, mas tinha de tirar tudo quando cruzava com a diretora. No dia em que foi pego usando o banheiro feminino, levou uma bronca tão grande que nunca mais fez xixi na escola. Segurava até a hora de chegar em casa.
No ano em que saiu do armário, Dani repetiu pela primeira vez. Começou a faltar às aulas semanas seguidas e tirar nota vermelha em quase todas as matérias – menos nas duas em que as professoras concordaram em chamá- lo de Dani. A mãe se mudou para São Paulo, atrás de escolas que soubessem lidar com a diferença. Um mês depois da mudança, Dani havia sido recusado por sete colégios. Só foi aceito em uma escola especial, dirigida a alunos com dificuldade de aprendizagem e deficiência física ou mental.
É muito comum alunos transexuais abandonarem os estudos. Eles se sentem rejeitados por professores que se recusam a chamá-los pelo nome do sexo oposto e pelas restrições a seu modo de vestir. Para evitar que parem de estudar, algumas secretarias de Educação estão criando uma portaria para orientar as escolas. A primeira delas foi aprovada no Pará, no ano passado. Desde janeiro, alunos transexuais podem escolher o nome e o sexo, que fica registrado em sua matrícula. Assim, professores, diretores e funcionários têm de chamá-los e tratá-los pelo sexo de sua escolha. Em um mês, a secretaria contou 111 transexuais e travestis matriculados. “São jovens de 19 a 29 anos que tinham abandonado a escola e agora estão voltando”, diz a psicóloga Cléo Ferreira, uma das coordenadoras das mudanças na secretaria.
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