Reportagem Especial Globo: Epidemia do Crack

Acompanhe cobertura do OSP sobre a cracolândia

 


O crack se espalha pelo interior do Brasil (22/09/2008)

Uma série de reportagens revela como a droga se espalha de forma silenciosa pelo interior do Brasil. A primeira delas mostra trabalhadores rurais no Paraná que usam o crack como forma de doping.

Direção: Patrícia Carvalho. Reportagem: Tiago Eltz; Ricardo Soares; César Menezes e Luciana Kraemer. Edição: Patrícia Carvalho

Três horas da tarde de uma quarta-feira tranqüila em Paranavaí. A rotina pacata da cidade do interior do Paraná não resiste a uma olhada mais atenta.

Com uma câmera escondida nos aproximamos do homem que aparentemente aprecia a tarde sentado na praça. A pergunta é seca, sem rodeios.

- “Ou véio,.. beleza. Sabe onde pode arrumar uma pedra aí?”
- “Pedra?”
- “É”
- “Tô ligado não...”

O rapaz desconfia das pessoas que nunca tinha visto, faz algumas perguntas, e acaba cedendo.

- “Quanto você ia catar?”
- “Ah, umas duas pedras”.

Nosso produtor pergunta se é possível também comprar maconha. A resposta do traficante, é a síntese do que aconteceu na cidade.

- “Maconha não tem, só tem a pedra mano, joga o troco ali que eu pego lá procê lá do outro lado”.
- “Quanto tá fera?”
- “Deizão cada uma...”

Quando o homem sai para buscar a droga, desistimos da compra. Paranavaí fica no noroeste do Paraná, distante 500 quilômetros de Curitiba. Vive da agricultura e da pecuária e tem aproximadamente 75 mil habitantes, que nos últimos quatro anos viram perplexos a popularização do crack.

Sem alarde, a pedra foi ganhando a preferência de usuários de outras drogas.

“Não tinha tanto, eram poucos que tinham”, conta um usuário.
JG: Hoje quem quiser comprar acha fácil?
“É dois palito, hein? É mais fácil que pão”.

No Brasil, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde alerta para uma epidemia. Só no Rio Grande do Sul estima-se que a cada mil habitantes existam cinco usuários.

“A gente tem trabalhar isso como se fosse uma epidemia de dengue, que quando dá os surtos faltam leitos, faltam estruturas, ambulatórios e tal. A mesma coisa, com essa subida do crack, nós temos que organizar o sistema se saúde mental, multiplicar e depois garantir que essa pessoa seja acompanhada. Não se pode perder de vista o dependente”, alerta Osmar Terra, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde.

O Ministério da Saúde reconhece que o crack se alastrou, mas nega que haja uma epidemia.

“Eu acho que o consumo tem mais se alastrado por outras regiões do país, por regiões que não existiam, como por exemplo, interior do nordeste, e outras cidades no interior dos estados e que não acontecia antes. Então eu acho que isto tem um aumento de consumo, mas eu acho que tem que ser bastante cauteloso ao se falar de uma epidemia”, fala Francisco Cordeiro, assistente Saúde Mental – Ministério da Saúde.

“Há uma epidemia de crack. Se você considerar que epidemia é um número de casos de uma determinada doença, num determinado local, você vai pegar cidades onde você vê crescer assustadoramente o consumo de crack”, diz Andrea Domanico, psicóloga e doutora pela UFBA.

Nas cidades do interior, os centros de atenção aos dependentes de álcool e drogas viraram o termômetro dos efeitos do crack.

“Ele pode ter passado por diversas drogas, mas foi o crack que fez com que ele buscasse algum tipo de ajuda", alega Carla Amaral Barros, psicóloga.

Aqui vemos ir por terra uma idéia bastante difundida. A de que o crack se espalha por ser uma droga barata. Na verdade o crack custa tudo o que o viciado tiver.

“Um cara chegou uma vez com um perfume pela metade, e me falou: me dá uma aí, só uma. Aquele desespero que faltava chorar. Eu falei que não ia pegar o perfume. Ele falou: então espera um pouco. Depois ele voltou com uma caixa de correio. Eu falei que não ia pegar a caixa do correio. Ele voltou pra trás e voltou com um quadro de bicicleta. Eu dei uma no quadro de bicicleta. Ele foi, demorou uns 15 minutos e voltou com o pneu da bicicleta. Eu falei que não ia pegar o pneu da bicicleta. Aí eu falei pra ele: eu preciso de um DVD. Ele demorou meia hora, mas voltou com o DVD”, conta o jovem.

Histórias que se repetem nas esquinas da cidade. Ainda é dia quando flagramos um garoto mostrando um ferro de passar roupa para várias pessoas.

As conversas são em volta do banheiro público do terminal de ônibus da cidade. Um conhecido ponto de uso de crack. Mas nem todos se abrigam no banheiro para consumir a droga, principalmente à noite.

Uma garota senta encostada em uma parede. Calmamente prepara o cachimbo e acende a pedra. Ao lado dela, outra pessoa também usa a droga. Quando se levanta, percebemos que é o mesmo garoto que chegou no final da tarde, agora sem o ferro de passar.

Outro jovem nem se da ao trabalho de procurar um lugar escondido. Fuma no ponto de ônibus, enquanto carros e motos passam na frente. Depois tranquilamente joga a lata fora.

Quem tenta escapar do vício chega a procurar as cidades do interior como refúgio.

“Eu vim embora pra cá de volta, porque cidade pequena, a gente tem mais chance de parar, né?”, conta um dependente.

O cenário é dos mais inusitados. Longe das cidades o crack rompeu uma barreira impressionante. Abriu caminho na roça propriamente dita e chegou nas lavouras de mandioca no interior do Paraná. A droga virou o combustível trágico pra gente que vive de um trabalho pesado.

“Eu usava mais pra dar potência, pra trabalhar, pra render mais o serviço, né?”, conta um trabalhador

“Se é pra gente arrancar hoje 10 toneladas de mandioca, a gente arrancava 20. Eu sentia uma energia, uma força, vontade mais ganância de saber que de tarde ganhava mais dinheiro”, fala outro.

Trabalhadores rurais que preferem não se identificar dizem não usar a droga, mas testemunharam o avanço do crack nos tempos de colheita. Assim como o proprietário da fazenda:

“O ano passado a gente até assustou com a quantidade de casos que teve. De 60 a 80%, na colheita é...”, conta.

Homens que passaram a trabalhar como zumbis. “A pessoa tando com isto aí, pode se machucar, pode se cortar, não sente dor, é um anestesiante”, fala o trabalhador

“O sol pode estar 200 graus e eles não tão nem aí. E o rendimento deles é bem maior que o dos outros. Quando estão drogados”, fala o proprietário.

Mas eles rapidamente descobriram o preço que a droga cobra. “Se ele faz um tanto de serviço, num dia, no outro dia já faz menos, vai caindo, vai caindo. Já não anima mais, fuma, fuma, fuma pra voltar ao normal, mas não volta”, diz o trabalhador.

Mesmo a distância da cidade não atrapalha a chegada da droga. Os traficantes vão onde os possíveis clientes estiveram, como conta um dono de terras.

“A gente vê oferecer o dinheiro vir na cidade buscar, porque já acabou, porque senão eles não consegue completar o dia. A gente fica assustado porque nós temos filhos pequenos, a gente não sabe o que pode acontecer”, declara.

Ao invés das brincadeiras ou do esporte, que deveriam ser comuns na infância e na adolescência, muros altos e cercas de arame farpado. Instituições que abrigam jovens que cometeram crimes passaram a ficar cheias de usuários de crack.

Isso por causa de um dos principais impactos sociais da droga, a violência. Em uma dessas casas em Campo Mourão estão internados adolescentes de 12 e 13 anos que cometeram assaltos e roubos, e jovens mais velhos, de 17, 18 anos que cometeram homicídios. Quase todos eles eram usuários de crack.

“Morreram bastante, só que eu conheci morreram 32 rapazes assassinados, todos envolvidos no crack, às vezes estavam devendo...”, conta um dependente.

Quem luta contra a expansão do crack não tem encontrado muitos motivos pra otimismo.

“Primeira coisa para trabalhar com isso, a gente tem que ter muita resistência à frustração, muita. Não dá para criar uma expectativa muito alta em relação à essas pessoas, à esses usuários", declara Carla Amaral Barros, psicóloga.

Decepções que, nas palavras de um usuário, desafiam nossa capacidade de reação. “Hoje o crack tá solta a vontade, alastrado. Posso te dizer assim, alastrado mesmo e a tendência é só crescer. Eu acabo, mas o crack não acaba”, fala.


O sofrimento e a luta dos familiares de dependentes (23/09/2008)

Na segunda reportagem da série saiba como a droga age no organismo e porque causa uma dependência tão forte, a ponto de provocar nas famílias atitudes extremas para conter os viciados.

O crack é tido como a pior das drogas pela fulminante dependência que cria, pela brutalidade que provoca no viciado e, cada vez mais, pela violência que traz para dentro das famílias.

Na segunda reportagem da série Epidemia do crack, a repórter Luciana Kraemer encontrou mães que recorreram à violência para tirar os filhos do vício, no desespero para tentar salvá-los de si mesmos.

É como se fosse um claustro, mas é a casa de uma família...

“Isso não é vida, não é vida mesmo. Queria ter liberdade para poder sair descansada, ir para a igreja também, que é tão difícil tenho que ficar em casa, pedindo em casa mesmo”, conta a mãe de um dependente.

Os pedidos são todos para o filho de 15 anos, dependente de crack. Após duas internações e sucessivas recaídas, uma delas apenas 10 dias depois de sair de uma clínica, o garoto agora passa o dia no quarto, sob vigilância da mãe. Um castigo para os dois.

“Se sente medo e quando larga ele é pior ainda. Tá sempre com o coraçãona mão, será que ele vai usar, será que não vai?”, fala.

O medo da mãe é que ao sair por esta porta, o adolescente que aqui está protegido, volte para um caminho que ele já conhece. Foi aqui, perto de casa, que ele começou a usar crack. Na época tinha só 13 anos. Desde então, os pais lutam, do jeito que podem, para tirar o filho da droga.

Há três meses, a dona de casa tentou impedir à força que ele saísse. Nossa equipe estava no local e gravou as cenas a pedido da mãe,

"Eu quero sair”, diz o filho.
“Eu não vou deixar”, afirma a mãe.
“Vai deixar sim”, retruca ele.

O adolescente tentou resistir:

“Não vai me amarrar!”, grita o garoto.

Em abril ela já havia acorrentado o garoto. As autoridades providenciaram as internações, mas os períodos de apenas um mês não foram suficientes... E a corrente continua lá, ao pé da cama.

“No momento em que precisar eu faço de novo. Mas eu faço para o bem dele, para ele não ir para a rua, imagina só se matam ele na rua, os traficantes, sei lá...”, diz a mãe.

O medo da mãe é que ao sair de casa, o adolescente que está protegido, volte para o caminho que ele já conhece. Foi perto de casa que ele começou a usar crack. Na época tinha só 13 anos, desde então os pais lutam do jeito que podem para tirar o filho da droga.

Em diferentes partes do país, flagrantes da mesma história...

“O gesto desesperado de uma mãe para livrar o filho das drogas”, informava uma reportagem exibida pelo Jornal da Globo. “Ele tem 19 anos, é viciado em crack. A imagem do garoto curvado e acorrentado em uma cadeira pelos pés, chocou o assistente tutelar...”

A compulsão tem uma explicação química. A fumaça do crack contém cocaína pura. Como o pulmão, é um órgão muito vascularizado, a cocaína leva apenas oito segundos para atingir o cérebro e chega praticamente toda de uma vez, em uma concentração muito alta.

A droga penetra os neurônios, e bloqueia a absorção de dopamina, uma substância responsável pelo prazer. A dopamina se acumula entre os neurônios e encharca o cérebro com sensações de euforia.

O efeito dura pouco tempo, 10 minutos, no máximo. O que obriga a repetição da dose quase que instantaneamente.

“O que faz com que uma droga tenha um potencial de dependência grande são basicamente três fatores: o primeiro e mais importante é a capacidade que esta droga tem de ativar sistemas de reforço no cérebro, a outra é a capacidade que ela tem de atingir o cérebro muito rapidamente, e a outra é o tempo de duração, porque quanto menor, mais frequentemente o indivíduo consome a droga, e portanto mais rapidamente ele se torna dependente”, explica Rosana Camarini, professora do Instituto de Biomédicas da USP.

Um vício que chegou a ser associado apenas a moradores de rua, já atinge famílias que se sentiam protegidas por uma condição financeira melhor.

“A infância dela foi super legal, era uma menina bem ativa. A adolescência também viajou bastante, teve uma estrutura legal, sempre estudou em colégio particular, então assim, digamos, comida, escola, remédio, saúde não faltou para ela”, relata uma mãe de dependente.

A filha desta mulher, uma adolescente de 17 anos, abandonou a escola e o conforto de casa. Foram cinco meses sem saber onde ela andava.

“Ela morou na rua, virou uma mendiga e eu tive que tomar uma atitude. Chamei policiais, algemei, coloquei numa clínica novamente para tentar pelo menos resgatar a saúde mental dela e a física”, conta.

Para diminuir o sofrimento, muitas famílias buscam o conforto em locais como a o organização Amor Exigente, não religiosa, espalhada pelo Brasil e presente em países da América Latina.

De graça, eles acolhem cerca de 15 mil pessoas só em Porto Alegre. Até 2005, o álcool era o principal motivo que levava ao pedido de ajuda. Hoje, o crack representa quase metade dos atendimentos feitos na capital gaúcha.

No local, a família aprende que é preciso estabelecer regras para o dependente.

“Ele chega a hora que quer, dorme o dia inteiro, ele sai para a rua de noite volta de madrugada e vocês estão sempre tratando ele bem? Não, vamos começar a por limites. "Aqui não é lugar para isso". A gente procura incentivar a família, sem violência, mas que comece a mostrar como a casa deve funcionar”, afirma Arlete Colvara Lugo, coordenadora Amor Exigente – Porto Alegre.

É preciso cumprir metas, assumir novas atitudes, saber dizer não, principalmente quando o assunto é dinheiro.

“E nós que somos as caixinhas de dinheiro, como tu mesmo falasse, nós somos...as drogas”, depõe uma mãe em uma das reuniões da organização.

Uma faxineira que mora em Santa Maria, no interior gaúcho descobriu há um ano que o filho é viciado em crack. O jovem de 22 anos foi internado três vezes, mas assim que é liberado volta a se drogar.

“Se ele comer ele rouba o prato, se ele toma banho ele vende a toalha, ele leva tudo o que ele pode”, conta a mãe de um dependente.

Não sobrou quase nada do quarto do rapaz. Em vez de pratos, potes para a comida.

“Ele passa um mês sem tomar banho tranqüilo, ele queimou até esponja, ele não tem nem coberta. Ele vende tudo”, declara.

Na luta contra o crack, as mães se reconhecem na dor.

“Eu sofro, de tudo que é maneira eu sofro porque eu sou mãe. E eu tenho esperança de tirar ele dessa vida. Um dia eu vou conseguir”, afirma ela.

“Não é fácil para uma mãe ver o filho deteriorado, é muito difícil, sabe... Muito difícil mesmo. Eu já cheguei a pedir para Deus. Olha me entrega ela sem vida, que pelo menos eu sei que ela não tá sofrendo”, diz outra mãe de uma dependente.

Na reportagem de amanhã você vai conhecer a estratégia dos traficantes para fazer os usuários trocarem drogas mais leves pelo crack. E os flagrantes de venda da droga registrados pela nossa equipe na cidade histórica de Ouro Preto.


 

Na terceira reportagem da série Epidemia do crack, você vai conhecer a estratégia dos traficantes para fazer os usuários trocarem drogas mais leves pelo crack.

A epidemia de crack no Brasil é o resultado também de uma clara estratégia dos traficantes: eles substituíram as drogas leves pelo crack e o público alvo são consumidores de renda melhor, especialmente jovens.

Na terceira reportagem da nossa série especial sobre o crack, o repórter Ricardo Soares flagrou como a droga é vendida em lugares como Ouro Preto, entre as cidades históricas de Minas Gerais.

Santo Antônio do Leite, na região das cidades históricas de Minas Gerais, ainda é um refúgio para turistas que buscam descanso na vida pacata do campo. Seus cerca de mil e quinhentos moradores vivem da agropecuária. Há bem pouco tempo, as janelas viviam abertas, mas a chegada do crack alterou a rotina das famílias.

“É claro que choca. É a vida pacata das cidades mineiras que não tinham nenhum histórico de uso, estava afeito aos grandes centros. De repente quando esses casos começam a acontecer nesses espaços, casos associados à violência”, declara Clóvis Benevides, subsecretário de Políticas Antidrogas - MG.

De dia, a parada de ônibus é um ponto tranqüilo na paisagem. À noite o movimento, os jovens que vão ao local estão à procura de crack. Adolescentes compartilham a droga até que são surpreendidos pela polícia.

A poucos quilômetros dali, em Ouro Preto, a polícia monitora a ação de um traficante. A casa fica no centro histórico. Os clientes batem à janela. O morador aparece, recebe o dinheiro e entrega a droga.

A cena se repete várias vezes. Segundo as investigações, alguns usuários são estudantes universitários.

O traficante tem a ajuda da mulher, que também entrega a droga. Tudo se passa sem nenhum constrangimento ou preocupação de que a cena esteja sendo observada. O traficante retira a droga de um saco plástico e começa a contar as pedras.

A polícia espera o dia seguinte para agir. A casa é toda revistada. Na cozinha, os PM’s encontraram crack escondido na vasilha de arroz. E havia mais do lado de fora, num buraco do muro da casa vizinha.

Um levantamento feito pelo serviço reservado da PM revelou a existência de mais de 70 pontos de venda de drogas em Ouro Preto. Os bandidos procuram lugares estratégicos, e aqui como na região metropolitana, acabam dominado as comunidades carentes nos morros.

“São em geral, laboratórios artesanais. Porque você tem o que ali? Uma panela pra cozinhar uma substância ‘bicarbonatadas’, põe fogo, e você vai ter depois disto uma substância que explode cristalizando-se, com um barulho onomatopáico, né, que é o crack, que deu origem ao próprio nome”, explica Edmur Luchiari, delegado de polícia.

No Brasil, o crack não é uma sobra de cocaína. É feito a partir da adição de solventes mais baratos à pasta base, daí o preço ser menor para o usuário. Apesar disso, o lucro do crack pode ser comparado ao da cocaína.

“Ele compete com a cocaína em termos de lucro porque, apesar de ele ser uma droga muito mais barata, o volume de vendas do crack ele é muito maior. Então, o usuário ele compra 10, 15, 20 pedras de crack pra passar uma hora, duas horas com aquela sensação”, diz Luís Felipe Zilli do Nascimento, pesquisador Criminalidade e Segurança Pública – UFMG.

Mas há um porém. Por ser uma droga que estimula a agressividade, o risco do negócio também aumenta. “Vai demandar do traficante um reforço da segurança, um investimento em armamento, investimento em pessoal, digamos assim. É muito mais complicado você gerenciar a questão da segurança num ponto de venda de crack exatamente devido ao perfil desse usuário que é muito violento”, declara Zilli.

A busca dos traficantes por lucros maiores é uma parte da explicação para a epidemia do crack.

“O nosso usuário de crack teve um perfil diferente do usuário americano por exemplo, que já era um usuário fim de linha, era um usuário que já tinha passado por uma série de drogas e optou pelo crack. O nosso usuário era um usuário jovem, que estava iniciando no mundo de drogas ilícitas. Ia comprar maconha, por exemplo, e o traficante falava, maconha não tenho mas eu tenho uma outra droga aqui que eu queria que você experimentasse”, afirma Solange Nappo, psicóloga/Unifesp.

Para atrair mais usuários, a indústria do crack investe em padrões diferentes da droga. “Em algumas apreensões policiais de Minas Gerais, se verifica a adição de, por exemplo, um aroma, uma cor diferente nas pedras, enfim, estratégias de marketing, né”, revela Benevides, subsecretário de Políticas Antidrogas - MG

Cor e cheiro de chocolate. Ou pigmentos rosa e aroma de tuti frutti... Para se aproximar da goma de mascar... “Estratégias de marketing”, conclui Benevides.

Contra o marketing dos traficantes, os programas do governo, a Senad - Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas admite que não tem um programa específico para o combate ao crack, apesar da droga ter suas particularidades.

“Nós estamos preocupados em prevenir o uso de todas as drogas. Todas as drogas colocam nossos jovens em situação de vulnerabilidade e risco então as questões de prevenção devem ser para todas as drogas”, fala Paulina Vieira Duarte, sec. nacional adjunta de políticas sobre drogas.

“A gente não tem conhecimento de uma política efetiva em relação ao crack, ela não é uma epidemia ainda generalizada, ainda existiria uma forma de combater”, afirma Nappo.


A saída existe (25/09/2008)

Na última reportagem da série 'Epidemia do crack', você vai ver o longo caminho da recuperação. E conhecer as duas linhas de tratamento no Brasil, a abstinência e a redução de danos.

Quando surgiu o crack, nos anos 1990, dizia-se que era uma droga capaz de matar o usuário em poucos meses. Na verdade, o crack não mata diretamente, mas coloca o dependente num mundo de brutalidade e violência.

Na última reportagem da série Epidemia do crack, o repórter César Menezes foi atrás dos caminhos para recuperar viciados. As saídas existem.

Mal se vê a mancha no cartão postal. Pelourinho, símbolo de Salvador. Vale do Anhangabaú, coração de São Paulo.

Escondidos nos cantos, meninos sujos, cinzas, invisíveis porque a vontade de não ser visto combina com a vontade de não ver.

O crack invadiu o já degradado centro de São Paulo, criou um parque de diversões maldito para crianças marginalizadas. Pela TV o Brasil tomava conhecimento daquela invenção da metrópole: a cracolândia.

Quatorze anos se passaram, voluntários fizeram trabalhos sociais, casarões que eram usados para o consumo da droga foram desapropriados e demolidos, e nada disso foi capaz de acabar com a rua do crack.

Aquela geração de dependentes cresceu, teve filhos e foi substituída por uma nova geração de usuários. A Rua dos Protestantes continua recebendo crianças e adolescentes que vem aqui consumir a droga e o mais grave é que a cracolândia não fica apenas nesta rua, ela cresceu, deixou de ter endereço fixo, tornou-se um problema muito maior.

É um jogo de gato e rato. Na semana passada o SPTV e o Jornal da Globo denunciaram o consumo aberto de crack no novo centro financeiro de São paulo, o bairro do Brooklin, no dia seguinte a prefeitura reocupou o terreno. A polícia prendeu usuários, mas a cracolândia apenas atravessou a rua.

Para um psicóloga com tese de doutorado sobre usuários de crack a repressão policial tem seus limites. “Não adianta destruir a cracolândia. Não é assim que a gente vai resolver o problema social do crack. Quando nós conseguimos pegar parte daqueles meninos e reeducá-los, eles vão parar de fumar crack, na hora em que eles tiverem uma boa escola, quando tiverem um bom lugar para ficar, na hora em que eles tiverem algo para fazer, além de fumar crack, com certeza muitos vão abandonar o uso do crack”, afirma Andréa Domânico, psicóloga e doutora pela UFBA.

O contato dessas crianças com o mundo atende apenas a urgência de conseguir a próxima pedra de crack. “Não é mais o ritmo da criança, começa a ser o ritmo da droga. Então o dormir, fumar, dormir, fumar, começa a funcionar um pouquinho em função disso”, fala Fernanda Sato, educadora.

Devolver a infância e o vínculo com a família é tarefa difícil. É a missão da ONG Quixote, que começou a trabalhar nos anos 1990 com meninos de rua.

“Tem uma frase muito famosa do Quixote que é: ‘Criança prefere empinar pipa, do que pipar crack’, e você começa a criar uma relação de troca mesmo, ele é criança, ele tem desejo de criança que foram esquecidos”, diz um educador da ONG.

No Brasil, o tratamento do usuário segue duas linhas a abstinência ou a redução de danos.

O plástico ganha nova forma. Vira mesa, banco, caixa. A vida recupera o senso de utilidade.

"Ver a nossa auto-estima renovada, pegar o lixo lá e de repente você vê que tudo aquilo foi do seu suor", fala um interno.

Antes de completar 25 anos, esse outro dependente conheceu o inferno.

"O crack é uma droga que não tem fim. Cheguei muitas vezes a me envolver com homossexual pra arrumar dinheiro pra usar o crack", revela outro interno.

Ele buscou ajuda na 'Fazenda da Esperança', uma instituição católica dedicada à recuperação de dependentes químicos. O trabalho feito na instituição ganhou projeção mundial na visita do Papa Bento XVI ao Brasil.

"A Fazenda da Esperança, se fundamenta num tripé, o trabalho, a espiritualidade e a convivência, o ambiente família entre nós", diz Vinícius Gouvêa, responsável / Fazenda da Esperança.

O trabalho de recuperação feito na Fazenda da Esperança tem uma regra inflexível: a abstinência.

Drogas, álcool e cigarro são proibidos. Apesar do isolamento com o mundo, a fazenda mantém os portões sempre abertos. Mesmo no campo basta uma caminhada de menos de 500 metros por uma estradinha de terra para conseguir tudo o que o vício exige. Mas eles sabem que não sair significa transformar em realidade a decisão de vencer o crack.

Mais de dois mil dependentes são tratados atualmente em 52 fazendas da Esperança no Brasil e em mais seis países.

A internação tem um período mínimo de um ano. Sessenta por cento abandonam o tratamento rígido. Entre os que o completam, o índice de recuperação passa de 70%.

"Tô aqui há oito meses”, conta um interno.

“Saiu do crack? Venceu o crack?”, pergunta o repórter.

“Eu acredito que sim, espero nunca mais voltar, de jeito nenhum", diz ele.

A dependência criada pelo crack é tão forte que muitas vezes é impossível exigir abstinência. Uma outra forma de combater o consumo é tratar a saúde do usuário. É a redução de danos. Uma das primeiras experiências do Brasil foi no Pelourinho, no centro histórico de Salvador.

Nossa presença não interrompe a rotina do vício. “Queima e fuma. É o momento de eu dar um pau e a reação", diz um usuária.

Ela reconhece os agentes da 'Aliança de Redução de Danos', um serviço de extensão permanente da faculdade de medicina da Universidade Federal da Bahia.

O preservativo é o cartão de visitas. "É o primeiro contato, porque a pessoa, geralmente sobre o uso abusivo, geralmente faz sexo assim, livremente, e pode pegar HIV, hepatites virais, outras DSTs", fala Benimário Silva, agente de Redução de Danos.

A conversa nas ruas não pede o abandono do vício. A primeira conquista é a confiança. "Quando você adquire confiança, você abre possibilidade pra inúmeras coisas, inclusive de parar de usar drogas, se for opção dele", comenta Marcos Manso, agente de redução de danos.

O conceito de redução de danos é controverso. Mas é uma das políticas apoiadas pelo Ministério da Saúde. “Os projetos de redução de danos eles têm um acesso privilegiado em relação a estas pessoas e certamente é uma prática que o Ministério da Saúde apóia”, declara Francisco Cordeiro, ass. Saúde Mental - Ministério da Saúde.

As experiências de redução de danos do Brasil fazem parte de uma rede que dá apoio a quem decide a reconstruir a vida.

Que futuro uma mulher viciada pode dar a um filho? No projeto 'Lua Nova', em Araçoiaba da Serra, interior de São Paulo, o vínculo materno reescreve o futuro dos dois.

"Um filho traz pra gente algumas obrigações. Vá trabalhar porque é uma criança, sozinho, ele precisa de você, olha como você é importante, tem alguém no mundo que precisa muito de você", conta Ana Luiza, coordenadora da ONG Lua Nova.

A necessidade de oferecer abrigo, comida e trabalho diminui a importância da droga. Entre a vida e o vício, Ester escolheu o filho escreveu o nome dele em cima da porta da casa que construiu com as próprias mãos. E lá dentro, em cada detalhe, em cada gesto aprende a ser o que nunca sonhou: uma boa mãe.

"Saber que tem um teto pra poder ficar embaixo, um teto pra se aquecer, um lugar pro meu filho crescer, é isso que faz a gente mudar, né? Eu amo muito meu filho, acima de tudo!”, diz a mãe e ex-usuária.