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O "evento morte". Editorial Folha de São Paulo
FSP 07/05/2010
Editorial
ANTIGAMENTE , diz o coronel Álvaro Camilo, comandante da PM paulista, "tínhamos o marginal enfrentando a polícia com revólver calibre 38. Hoje, não". Usa armas mais pesadas -sentindo-se, portanto, mais fortalecido nos confrontos com as autoridades.
Esta é a principal explicação do coronel para o fato de que, nos três primeiros meses deste ano, em comparação com igual período do ano anterior, tenha passado de 104 para 146 o número de civis mortos pela PM.
Mas não parece razoável supor que, de um ano para outro, um súbito acesso a armamentos mais sofisticados, por parte dos delinquentes, pudesse responder por um incremento de 40% no derramamento de sangue.
Com maior limpidez estatística, o número de mortos pela polícia corresponde à mudança nos nomes de quem ocupa o cargo de secretário da Segurança Pública.
De abril de 2002 a março de 2003, quando o titular do posto era Saulo Abreu Filho, 598 pessoas foram mortas pela polícia. O número caiu para 368 de abril de 2008 a março de 2009, sob seu sucessor, Ronaldo Marzagão. Passa a 566 no período 2009-2010, quando Antonio Ferreira Pinto tornou-se secretário.
Note-se que, no longo prazo, a criminalidade tem decrescido de forma acentuada e constante em São Paulo, sem relação direta com tão bruscas oscilações no número de confrontos fatais.
O atual secretário, que merece elogios pelo firme combate que move contra a corrupção policial, deu posse ao novo comandante da Rota lamentando o "imobilismo por culpa daqueles que se acomodaram" e afirmou que o "politicamente correto beira a hipocrisia".
Foi um discurso infeliz. Para o público a que se destinava poderia ser facilmente entendido como um estímulo ao excesso. Faz recordar a antiga e demagógica tese dos que, reivindicando "a Rota nas ruas", não lamentam a prática da execução sumária de qualquer suspeito, mesmo se depois comprovada sua inocência.
"O evento morte", filosofou por sua vez o comandante da PM em entrevista à Folha, "não é interessante para a polícia". Menos ainda, acrescente-se, para os que tenham sido injustamente vitimados em atos de abuso e precipitação policial.



