Internautas usam a rede com plataforma de cidadania

Notícia da imprensa (O Estado de S. Paulo, 10/03/2010).

Um deles voou direto de Belo Horizonte. Uma tinha acabado de chegar da Suíça, onde participou de uma reunião para implementar um projeto de transparência nas próximas eleições brasileiras. Outro se prepara para levar sua ferramenta - que nasceu meio "sem querer" - para a prefeitura de São Paulo. O outro, empolgado, aproveitava cada pose da foto para fazer referências a seu recém-criado movimento: #webcidadania. Juntos, eles - e mais outros que não conseguiram parar na tarde da quinta-feira para a foto - estão construindo, por meio da web, maneiras audaciosas, lúdicas e criativas de levar para a política o que a sociedade já aprendeu com a web 2.0.

"Nossas necessidades não estão refletidas em lugar nenhum. Tudo é feito a partir de representação. É uma lógica só de cima para baixo. Precisamos criar uma lógica de baixo para cima", disse Rodrigo Bandeira. Seu site, "Cidade Democrática", permite que as pessoas deem suas opiniões e criem uma rede de discussões ao redor dos problemas da cidade em que vivem. E agora, ele articula o #webcidadania, movimento para reunir todas as pessoas que têm ideias parecidas.

Uma delas é o "Adote um Vereador", iniciativa nascida em São Paulo. Nela, pessoas comuns acompanham o trabalho de um político durante um tempo - criam um blog e abastecem um wiki com os passos do trabalho legislativo. "O brasileiro ainda vê política apenas como voto. Mas é um processo contínuo, de quatro anos", diz Everton Alvarenga, ativista e responsável pela plataforma wiki do projeto.

Exemplo: você sabe o que é que os deputados apresentam na Câmara? Os projetos de lei estão disponíveis no site da Câmara, mas estão escritos - na maioria das vezes - de forma burocrática e de difícil acesso. O "Vote na Web", projeto da empresa Webcitizen, busca simplificar a votação que acontece na Câmara para que os próprios cidadãos opinem. "Estamos acostumados a criticar. Saímos da ditadura, não se podia falar; depois podia dizer tudo, todo mundo reclama. Agora eu acho que é hora de pensar no que nós podemos fazer", diz Fernando Barreto, fundador da Webcitizen.

No Brasil, a maior dificuldade para criar um projeto desse tipo é a falta de acesso aos dados públicos. O "Vote na Web" usou uma base de dados que é aberta - os projetos de lei da Câmara -, mas não há como criar ferramentas com base em outros dados do governo. Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, existem sites governamentais que disponibilizam indicadores de todos os tipos para que desenvolvedores criem aplicativos. Aqui não. Lá, iniciativas civis de participação popular na política já são bem conhecidas, como o "MySociety" ou o "They Work for You". "O obstáculo em relação a esses países é que não temos tanta informação quanto eles", diz Alvarenga.

O pessoal do site "Transparência HackDay" está tentando contornar essa realidade. Daniela Silva (que acabou de chegar de viagem da Suíça) e Pedro Markun tiveram a ideia de reunir pessoas que estavam dispostas a transformar dados do governo em iniciativas concretas. Em um dos encontros, surgiu uma ideia meio por acaso: o desenvolvedor Bruno Barreto pegou os dados de reclamação enviados à Prefeitura de São Paulo para montar um ranking com um mapa. Deu tão certo que o serviço será incorporado pelo governo. Além disso, a lista de discussão criada por eles já conseguiu incorporar pontos importantes para o PL 219-2003, que legisla sobre o acesso à informação pública. "Colocamos o projeto em discussão e integramos pequenas mudanças", diz Markun.

Cada uma dessas iniciativas tem uma natureza: são ONGs, empresas ou movimentos informais que agora começam a se articular para unir forças. Rodrigo, Pedro, Fernando e Daniela, por exemplo, vão esta semana para Curitiba, onde participarão da Conferência Internacional sobre Redes Sociais. Rodrigo apresentará o seu #webcidadania, que reunirá algumas dessas iniciativas em uma só plataforma. Será possível, com um login, adotar um vereador, fiscalizar os deputados, opinar sobre os problemas da cidade e o que mais aparecer.

"Estamos sinalizando que nossos projetos são parte de um desejo maior", diz Rodrigo. Como todos eles disseram, quando se fala em cidadania não há concorrência: todos eles estão buscando o mesmo objetivo.

Desde o pioneiro "Voto Consciente", chamado por Daniela como o "avô" de tudo isso, até a "Bolsa de Valores Políticos" - campanha de uma corretora de ações que faz "compra e venda" de políticos com uma moeda fictícia - todos eles fazem parte de um movimento que está ganhando corpo e começa a chamar a atenção do poder público.

"A dificuldade não acontece por uma má intenção dos governos. Estamos em uma fase de transição", acredita Fernando Barreto, do "Vote na Web". "A partir do momento que você tem acesso à informação que você quer, e não à que está na televisão, esse é um caminho sem volta", diz ele. "O governo tem que entender que não está compartilhando o poder com as pessoas, mas, sim, responsabilidade. Está dividindo com a sociedade a possibilidade de atuar em conjunto", diz Markun.