Folha de São Paulo, 03 de junho de 2010
Cotidiano
Grupo acusado de vários crimes ainda é alvo de Promotoria; três foram presos ontem
ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO
O Ministério Público Estadual e a Corregedoria da Polícia Militar investigam a existência de um grupo criminoso chamado de "eixo do mal" da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), espécie de tropa de elite da PM paulista.
Ontem, Renata Gomes de Oliveira Franco, o PM Deoclécio Onofre Souza e Lucio Flávio Moreira Santos -suspeitos de ligação com o grupo- foram presos temporariamente por 30 dias.
Eles são acusados pela Promotoria e Corregedoria da PM de matar o soldado da Rota Emerson Barbosa Santos, 32, marido de Renata.
O soldado foi encontrado morto em Louveira (71 km de SP), em setembro de 2006.
O PM Souza foi preso ontem dentro do 15º Batalhão, em Guarulhos (Grande SP). Ele trabalhou na Rota até 2006, era vizinho e amigo do PM assassinado.
O "eixo do mal" tem cerca de dez PMs, segundo a investigação, e é suspeito de praticar crimes como roubo de carga e homicídios.
Hoje, a maioria dos suspeitos está fora da Rota e trabalha no norte da Grande SP.
Pelo que descobriram a Promotoria e a Corregedoria, Santos era integrante do "eixo do mal" e brigou o grupo.
O corpo carbonizado do soldado foi encontrado numa área rural de Louveira. A investigação aponta que o soldado não foi morto em Louveira, mas, sim, dentro de sua casa, em Guarulhos.
OUTRAS INVESTIGAÇÕES
Após a morte do soldado Santos, alguns dos PMs suspeitos de integrar o "eixo do mal" da Rota foram transferidos para o 18º Batalhão da PM, na zona norte de SP.
Mais tarde, esses mesmos PMs foram investigados sob suspeita de participar do atentado a tiros que matou em janeiro de 2008 o coronel José Hermínio Rodrigues.
Uma das hipóteses para a morte de Rodrigues, comandante da PM na zona norte, é a de que ele combatia PMs do 18º Batalhão que formaram um grupo de extermínio.
A reportagem da Folha não conseguiu localizar os advogados de defesa do PM Onofre Souza, de Renata Franco e de Lúcio Santos.
Folha de São Paulo, 01/06/2010
PMs são suspeitos de mais 12 mortes.
Grupo de extermínio formado supostamente por pelo menos cinco policiais teria matado 23 pessoas ao todo
Além das mortes, as 17 tentativas de homicídio investigadas ocorreram nas áreas de atuação de cinco DPs da zona leste
ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO
Um grupo de extermínio formado supostamente por pelo menos cinco policiais militares do 21º Batalhão (zona leste de São Paulo) é suspeito de ser o responsável por mais 12 mortes e 17 tentativas de assassinato investigadas pela Polícia Civil.
A existência do grupo foi revelada pela Folha no dia 16 de maio. Até então, a suspeita era que ele tivesse matado 11 pessoas. Agora, as mortes investigadas já chegam a 23.
Desde 21 de maio, o PM Valdez Gonçalves dos Santos, 36, está preso sob suspeita de comandar o grupo.
Valdez foi preso por ordem do juiz Daniel Ovalle da Silva Souza, do 1º Tribunal do Júri, como principal suspeito de matar o camelô Roberto Marcel Ramiro dos Santos, 22.
Dezenove dias antes da morte de Santos a tiros, na Vila Invernada (zona leste), o PM Valdez ameaçou o camelô e sua mãe, Janete Rodrigues, de morte. O crime foi na madrugada do último dia 8.
OUTROS SUSPEITOS
Após a prisão de Valdez, outros dois PMs suspeitos de ajudá-lo tiveram parte de sua identificação descoberta pelo DHPP (departamento de homicídios), da Polícia Civil: Padovani e Audrey.
Os crimes investigados como cometidos pelo grupo de extermínio supostamente formado por PMs começaram em 28 de março de 2009 e duraram até a morte do camelô, no dia 8 de maio.
As 23 mortes e 17 tentativas de homicídio aconteceram nas áreas de atuação de cinco delegacias da zona leste da capital: Parque São Lucas, Vila Diva, Tatuapé, Vila Alpina e Vila Formosa.
CÚPULAS REUNIDAS
Na maior parte dos homicídios, as 23 vítimas foram baleadas por encapuzados que chegavam em motocicletas e em dupla.
Um Meriva preto, um Honda Fit prata e uma Tucson também são investigados nos atentados.
Os assassinatos em que PMs aparecem como suspeitos forçaram a cúpula das polícias Civil e Militar de São Paulo a planejarem uma força-tarefa para tentar solucionar os casos.
Entre hoje e amanhã, o novo corregedor da Polícia Militar, coronel Admir Gervásio Moreira, que assumiu o cargo no dia 21 de maio, o delegado-geral da Polícia Civil, Domingos de Paulo Neto, e o chefe do departamento de homicídios, Marco Antonio Desgualdo, se reunirão.
Desde o dia 14 de maio, a Folha tenta obter uma palavra oficial do Comando-Geral da Polícia Militar sobre o caso, mas não houve resposta.
A reportagem também não conseguiu contato com o policial Valdez nem com seus defensores.
"CASOS PONTUAIS"
Na sexta-feira, ao falar com a Folha sobre suas metas à frente da Corregedoria, o coronel Gervásio declarou que grupos de extermínio supostamente formados por PMs "são casos pontuais, conduta individual, e não conduta institucional".



