22/08/2010
Notícia: Portal Veja
UPPs passam a ser tratadas como ‘atração turística’
Boa parte das favelas cariocas está encarapitada sobre os morros da cidade, de onde se tem vistas espetaculares. Durante décadas, essa localização serviu para transformá-las em abrigo seguro para traficantes. Recentemente, esses territórios começaram a ser recuperados para a cidade por meio de uma política de segurança calcada na implantação de UPPs, as Unidades de Política Pacificadora, que encravam batalhões de policiais onde antes a bandidagem reinava. Foi uma iniciativa louvável, que tem se mostrado eficaz. Bastou um ano, porém, para que a boa ideia das UPPs tivesse um desdobramento espúrio.
Com assinatura do Ministério do Turismo e do governo do estado, deverá ser lançado com grande estardalhaço no dia 30 de agosto, no Morro Dona Marta, um programa batizado de “Rio Top Tour”. Seu objetivo é estimular a visitação das encostas ocupadas pelas favelas, e 230 000 reais serão gastos para treinar os moradores locais como guias turísticos. Considerado o peso das UPPs na propaganda do governador Sérgio Cabral, candidato à reeleição no Rio, o lançamento do ‘Top Tour’, tal como anunciado, tem inegável sabor eleitoreiro. A presença do presidente Lula é aguardada, na laje onde foi gravado o clipe do cantor Michael Jackson em 1996. Na ocasião, também deverá ser badalado o projeto UPP Social, iniciativa que pretende abarcar, de uma vez só, todas as demandas sociais das favelas com UPPs. Atualmente, há 12 favelas com UPPs; a meta do governo do estado é ter 40 favelas incluídas no projeto até 2014.
Os benefícios e lacunas da política de pacificação estão às claras em qualquer visita às favelas. A constatação óbvia é a de que o controle territorial por criminosos foi interrompido. Mas quem sobe o morro percebe que, a despeito dos avanços no quesito segurança, a favela está longe de ser algo do qual a cidade possa se orgulhar. “Sinceramente, não sei o que tanto interessa a eles aqui”, afirma a dona-de-casa Josefa França de Figueiredo, moradora do Dona Marta, em Botafogo, que recebeu a primeira UPP.
Precariedade - A favela ainda depende de um sistema de canos improvisado para servir de esgoto – que, nos dias de chuva, provoca inundações de água contaminada nas ruas e casas. Só na última quarta-feira a população do Dona Marta começou a ser atendida pela Comlurb, a companhia de limpeza urbana do Rio, encarregada da coleta de lixo. Até então, quem fazia o trabalho eram garis comunitários.
O lixo é um dos problemas de outro ponto com visão privilegiada do Rio. No Morro da Babilônia, no Leme, ao lado da escadaria por onde já sobem turistas para conhecer a paisagem, acumula-se o lixo, transbordando de uma caçamba da prefeitura. A favela, que ganhou uma UPP em junho do ano passado, passou a ser roteiro de caminhadas ecológicas, recebe grupos interessados em fotografar o litoral de Copacabana do alto e propicia a grupos de pelo menos 20 pessoas uma feijoada no alto de uma das lajes do morro. No último réveillon, as vagas para assistir à queima de fogos de Copacabana foram disputadas – assim como no Pavão-Pavãozinho, no mesmo bairro, onde no mês passado foi inaugurado um elevador panorâmico feito com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Ainda há, na favela, quem viva como nos primórdios da ocupação do morro, em barracos de madeira aproveitada e construídos na base do improviso. Maria Arteiro do Carmo, 64, criou oito filhos no Dona Marta, onde vive há 45 anos. Com renda mensal que não passa de 200 reais, depende de biscates para sobreviver. "Minha vida até agora não mudou nada", afirma.



