Chips vão substituir radares

Folha de São Paulo, 31/10/2009 Cotidiano

 

Monitoramento eletrônico da frota paulistana a partir de 2011 permitirá intervenções automáticas no fluxo de veículos na cidade

Segundo o secretário, quase 100% dos 15 mil km de vias da cidade serão mapeados com as antenas que captam os sinais dos chips

EVANDRO SPINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL

A instalação de chips nos mais de 6 milhões de veículos de São Paulo, com início previsto para 2011, vai substituir os radares e facilitar a orientação do trânsito.
De acordo com o secretário municipal dos Transportes, Alexandre de Moraes, praticamente 100% dos cerca de 15 mil km de vias da cidade serão mapeados com as antenas que captam os sinais dos chips. Hoje, apenas 8,5% das vias têm monitoramento e fiscalização.
"Com essas antenas, não haverá necessidade mais de instalação de novos radares, porque elas poderão funcionar como radares para velocidade, para leitura automática de placas, para determinar que numa determinada via naquele momento só possam passar caminhões", afirmou.
Ele citou como exemplo um problema qualquer de trânsito na marginal Tietê que congestione a via. Se os técnicos acharem necessário isolar duas faixas apenas para caminhões, deixando as demais para os carros, a medida poderá ser feita automaticamente. Hoje, isso só é possível se houver uma reprogramação de todos os radares da marginal para identificar a irregularidade.
Moraes disse também que a tecnologia vai permitir que as blitze sejam feitas com menos interferência de trânsito.
"Hoje, quando tem uma blitz, há necessidade daquele afunilamento, de ir parando carro por carro. Esse sistema, já com uma distância razoável, vai apontar qual é o veículo que está irregular, seja irregularidade administrativa ou irregularidade penal, veículo furtado ou roubado", disse o secretário.
Segundo ele, não existe possibilidade de violação de sigilo com a nova tecnologia. "Não há a mínima possibilidade de o operador que verifica o tráfego de veículos saber instantaneamente qual é o proprietário daquele veículo. Há uma série de codificações. Esse é um ponto para a população ficar absolutamente tranquila."
A licitação para a contratação do serviço será realizada em 2010. A empresa contratada, por parceria público-privada ou concessão, terá de comprar e instalar os chips, as antenas e todo o sistema de monitoramento que vai disponibilizar os dados para os órgãos de fiscalização -CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), SPTrans e Polícia Militar.
Moraes afirmou que o custo de instalação dos chips vai ser bancado pela prefeitura.
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) reconheceu que a tecnologia dos chips permitirá a instalação de pedágios urbanos, mas afirmou que em São Paulo isso não vai ocorrer. "Nas cidades que quiserem implantar o pedágio, é evidente, é uma tecnologia que pode ser usada. Na cidade de São Paulo, não haverá pedágio urbano", disse.


Folha de São Paulo, 31/10/2009 cotidiano


Tecnologia fica mais interessante e temível

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Sempre que ouço alguém falar em "complô", tenho vontade de chamar um psiquiatra, mas não é preciso ser paranoico para identificar riscos à segurança e à privacidade na tecnologia de identificação por frequência de rádio (RFID, no acrônimo inglês), na qual se baseia a placa eletrônica.
O problema não são só os carros, mas o crescente número de itens dotados desse pequeno chip, que armazena e transmite informações quando ativado por um mecanismo de leitura.
Etiquetas RFID já estão presentes em cartões bancários, produtos eletrônicos e, à medida que se tornam mais baratas, vão cada vez mais substituindo o código de barras da embalagem dos produtos. A decodificação do RFID, ao contrário da do código de barras, não requer a aproximação do leitor ao chip, podendo ser feita a vários metros de distância ou até mesmo por dispositivos wi-fi.
É exatamente aí que a tecnologia se torna ao mesmo tempo mais interessante e mais temível. Comecemos pelo lado do bem. A localização de qualquer item etiquetado torna-se automática na área de cobertura por leitores. O extravio de malas em aeroportos, por exemplo, deixa de ser um problema. São grandes as vantagens em termos de organização e logística, caso das bibliotecas e da indústria. Também a segurança sai favorecida. Um exemplo óbvio é o da redução de furtos em lojas e supermercados.
Aplicações derivadas podem incluir o fim das filas em caixas (as mercadorias levadas pelo consumidor cadastrado são debitadas diretamente em seu cartão de crédito) e até geladeiras inteligentes que avisam seu proprietário quando expira o prazo de validade dos produtos nela contidos.
No futuro, portadores de determinadas moléstias poderão andar com seu prontuário eletrônico implantado num chip sob a pele. Assim que entrarem num hospital, o médico já saberá do que cada um sofre e terá acesso aos exames anteriores, evitando erros iatrogênicos.
O problema é que, pelo menos por enquanto, não há como "desligar" os chips RFID. Isso significa que cada um de nós pode ter seus passos monitorados apenas por andar com um cartão de crédito, mesmo sem utilizá-lo. Pior ainda, pessoas mal-intencionadas podem obter acesso a informações bastante pessoais, como o valor aproximado das compras que acabamos de fazer ou o tamanho do sutiã que uma mulher esteja usando.
Há um limite para quão aberto deve ser o livro de nossas vidas. Não é necessário acreditar em todo gênero de teorias conspiratórias para ver com uma ponta de receio a disseminação da tecnologia RFID.