Segurança Pública

Mais da metade dos mortos no ES durante motim era da periferia

85 vítimas, das 149, moravam no subúrbio da Grande Vitória; segundo levantamento, maioria era parda.

Márcio Dolzan , 

Enviado especial

15 Fevereiro 2017 | 20h33

 

VITÓRIA - Mais da metade dos homicídios ocorridos no Espírito Santo desde que teve início a paralisação da Polícia Militar foram de moradores da periferia da Grande Vitória. Segundo levantamento do Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo (Sindipol/ES), 85 vítimas dentre as 149 que foram assassinadas até esta quarta-feira, 15, eram homens que moravam no subúrbio das sete cidades que formam a região metropolitana.

Ainda segundo o Sindipol, entre o total de mortos a maioria era de pardos. As idades variavam de 14 a 69 anos - 11 menores foram assassinados. Dentre as vítimas, havia 11 mulheres. Os números têm como base os registros da Divisão de Homicídios (DHPP), do Departamento Médico Legal de Vitória (DML) e do Centro Integrado de Defesa Social (Ciodes).

O município de Serra, na Grande Vitória, foi o que registrou maior número de homicídios desde que iniciou a paralisação da PM. Foram 35 mortes desde o dia 4. Desse total, 33 eram homens.

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Exército inicia ação no Rio; em 10 anos, tropa teve de ir às ruas em 1/3 dos dias.

Força participou 67 vezes de operações de Garantia da Lei e da Ordem na última década em 17 Estados. Motivos vão de eleições e ataques a reuniões de autoridades.

Marco Antônio Carvalho e Mariana Durão

15 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO E RIO - Nove mil homens das Forças Armadas passaram nesta terça-feira, 14, a reforçar a segurança do Rio, naquela que será a quarta operação desenvolvida pelas tropas neste ano, após atuarem no Rio Grande do Norte e no Espírito Santo, e terem sido destacadas para fazer varreduras em presídios. Levantamento feito pelo Ministério da Defesa e pelo Comando do Exército, a pedido do Estado, mostra que o acionamento do reforço federal tem sido cada vez mais comum e já consumiu 1.300 dias de atividades nos últimos dez anos, o que equivale a mais de três anos de operações.

Apesar de a atuação estar prevista na Constituição, sob o escopo de Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), o uso recorrente é criticado por especialistas que veem desvio de finalidade da força e risco de prejuízos à sociedade. O acionamento encontra ressalvas também dentro das corporações.

O Exército participou 67 vezes de operações GLO na última década em 17 Estados. São as mais variadas as razões: de ataques violentos nas ruas, como em Natal em janeiro, ao congresso técnico da Fifa, em Florianópolis (2014). O rol de atuações inclui ainda 13 participações para seguranças de reuniões, encontros e cúpulas com autoridades de Estado, 15 para eventos esportivos e 9 para eleições ou plebiscitos.

As mais comuns são as ações de patrulhamento e ronda urbana, como a do Rio. As tropas já estiveram no Estado entre novembro de 2010 e julho de 2012 na Operação Arcanjo, quando foram empregadas na pacificação de favelas. O Rio está entre os que mais usam as tropas, como ocorreu em 2013 para segurança durante a realização dos leilões de campos de petróleo de Libra e na Jornada Mundial da Juventude.

O diretor executivo do Instituto Sou da Paz, Ivan Marques, pede cautela no uso da Força, que considera necessária só em momentos urgentes. “As tropas têm como missão a defesa da soberania nacional e são preparadas para a lógica de guerra. Como polícia, elas têm de entender que o objetivo é proteger e servir e não ver o cidadão como inimigo a ser abatido.”

Ele fala que o reforço pode acabar por levar mais tensão. “Imagina o soldado treinado para matar enfrentando com um fuzil de guerra a criminalidade das ruas. Pode ter consequências não desejadas pelo Estado”, disse. 

O especialista em segurança e inteligência Ricardo Chilelli critica esse emprego. “Não tem perfil, não tem doutrina nem treinamento. É totalmente indevido. Uma hora é para atacar Aedes, outra hora para subir morro no Rio”, disse.

Nesta terça, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, foi taxativo ao afirmar que a Operação Carioca tem caráter preventivo, porque, ao contrário do Espírito Santo, o Rio não vive descontrole do policiamento. No pedido enviado à presidência, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) chegou a mencionar o risco de uma “contaminação”.

Na sexta, familiares de policiais passaram a fazer protestos na porta de batalhões fluminenses, com efeitos menores. “O policiamento, em que pesem os protestos, está na ordem de 95%, 97%”, afirmou Jungmann.

As tropas devem ficar no Estado até dia 22. O número de militares à disposição do governo do Rio corresponde a 20% do efetivo de PMs do Estado, de 45,9 mil homens. O pedido original solicitava que o reforço permanecesse durante o carnaval, o que só deve ocorrer se a operação for prorrogada. O Exército patrulhará integralmente a Transolímpica, a Avenida Brasil, pontos de Deodoro e de Niterói e São Gonçalo. Além disso, um grupamento de mil fuzileiros navais vai atuar entre o limite norte do bairro do Caju e o limite sul do bairro do Leblon.

Movimento. No quinto dia de protestos na frente de batalhões, a mobilização perdeu força. No 6.º Batalhão (Tijuca), os policiais já conseguiam sair sem bloqueio. O mesmo aconteceu em Jacarepaguá (18.º), Méier (3.º) e Olaria (16.º). Em uma tentativa de forçar o fim do movimento, o Estado fez o pagamento de salários e benefícios atrasados de janeiro. A Polícia Militar e os bombeiros ainda receberam reajuste de 7,65%.

As mulheres que lideram a ação se revezam e montam uma escala de plantão via WhatsApp. Elas têm usado doações para se manter. Em Rocha Miranda, na zona norte, um dos grupo se cotizou e comprou uma piscina inflável de 3 mil litros no fim de semana.

Comando diz ter criado centro e ajustado conduta

O Comando do Exército informou ao Estado que nas últimas décadas atualizou seu plano de treinamento, “de modo a contemplar seus quadros com conhecimentos teóricos e práticos para aperfeiçoamento do desempenho nas atividades de não guerra, com foco na proteção da sociedade”. A corporação acrescentou que criou um centro específico para instrução das Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que chama de “polo de referência para a formação dos quadros e do desenvolvimento da doutrina”.

“A experiência do Exército nas últimas décadas em diversas situações de emprego nas operações GLO e em vários Estados da federação contribuiu para a melhoria das práticas e dos resultados nesse tipo de operação, a partir da compilação e disseminação das lições aprendidas em cada tipo de evento”, informou por nota. Oficialmente, o Exército classificou como “importantes missões” a recorrência de acionamento para ações nos Estados, “face às dificuldades enfrentadas na segurança pública”. A reportagem fez questionamentos à Aeronáutica e à Marinha, por meio do Ministério da Defesa, mas não obteve resposta. /COLABOROU CONSTANÇA REZENDE

 

 

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,exercito-inicia-acao-no-rio-em-10-anos-tropa-teve-de-ir-as-ruas-em-13-dos-dias,70001666018

Mesmo com tropa na rua, tensão segue no ES e greve de PM deve chegar ao Rio

Moradores revoltados com a falta de patrulhamento nas ruas entraram em confronto com manifestantes que bloqueiam quartéis em Vitória; Exército está de prontidão.

Marcio Dolzan

O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 17h37

VITÓRIA e RIO - O reforço da Força Nacional de Segurança e de tropas militares não estancou a sensação de insegurança no Espírito Santo. O número de mortes desde sábado subiu para 75 no quarto dia de greve da Polícia Militar. O clima de tensão dividiu a população: moradores revoltados com a paralisação e parentes de PMs entraram em confronto na frente do Quartel Central. O movimento grevista encontrou eco no Rio. Famílias de policiais programam iniciar movimento semelhante nesta semana.

Apesar da redução no número de homicídios – foram 3 casos ontem, igual à média diária registrada no primeiro semestre de 2016 –, a insegurança se mantém em Vitória e revoltou um grupo de moradores. Pneus foram queimados na Avenida Maruípe, na frente do Quartel Central, onde parentes de PMs fazem piquete desde o início do movimento grevista – impedindo saída de agentes. Os grupos se enfrentaram e soldados do Exército usaram spray de pimenta para contornar a situação. Pelo menos 30 PMs fardados, no batalhão, assistiram à confusão de braços cruzados.

Priscila Nascimento de Almeida, de 27 anos, namorada de um PM, foi atingida por uma pedra na cabeça enquanto circulava em meio ao grupo. “Eles pensam que a culpa pelo que está acontecendo é nossa, mas a culpa é do governador”, afirmou.

Já o secretário de Segurança Pública do Espírito Santo, André Garcia, classificou como “chantagem” o movimento e prometeu punição. Segundo ele, os piquetes de mulheres “não passam de teatrinho”.

Quem se queixou da situação foi Wanderson Celestino, de 36 anos, trabalhador informal em um lava-jato na periferia. Desde sábado, está sem serviço. “Preciso trabalhar, senão não tenho como pagar meu aluguel.”

João Paulo Rocha, de 20 anos, teve seu automóvel Gol roubado em Vila Velha no último domingo. Ele estava com a namorada quando foi abordado por dois homens em uma moto. Segundo ele, a chegada dos agentes do Exército e da Força Nacional de Segurança melhorou a situação apenas nos bairros nobres. “As pessoas estão circulando só de carro, não se vê ninguém caminhando pelas ruas.”

Rio. O movimento no Espírito Santo pode provocar reflexo no Rio. Frustrados com a crise financeira do Estado, com salários atrasados e sem receber o décimo terceiro, policiais e suas famílias passaram a mobilizar-se para entrar em greve na sexta-feira. O plano é seguir para a porta dos batalhões às 5h30.

Tropas do Exército já estão se mobilizando para o caso de a Polícia Militar fluminense entrar em greve. Embora o Comando Militar do Leste afirme que há apenas “planejamento” até o momento, fontes confirmaram ao Estado que homens da Brigada Paraquedista estão se apresentando no quartel, para ficarem de prontidão, em caso de necessidade.

“Nosso objetivo é acampar na frente dos quartéis. Estamos nos organizando para fazer revezamento”, afirmou uma das organizadoras, que se identificou como Ana. Segundo ela, a adesão será grande dentro dos quartéis. “Eles não podem fazer greve, mas estão revoltados pela forma como os servidores estão sendo tratados pelo governo. E os policiais não vão aceitar que o Batalhão de Choque agrida as famílias como tem agredido os servidores. Não vai ter covardia”, afirmou.

A polícia fluminense, no entanto, não tem histórico de paralisação. “O setor de inteligência está monitorando essa mobilização, mas não temos como medir a adesão. Estamos atentos e continuaremos trabalhando”, afirmou o major Ivan Blaz, porta-voz da Polícia Militar.

A mobilização das famílias de PMs provocou uma onda de boatos nas redes sociais. Um ofício falso do comandante da PM, Wolney Dias, autorizando a greve, chegou a repercutir. O perfil da Polícia Militar no Facebook desmentiu os boatos e fez um apelo à tropa. “A nossa falta causaria males incalculáveis e irreparáveis. Paralisar um serviço essencial afeta toda a população, incluindo nossas famílias. A quem interessa a barbárie?”

ENTENDA A CRISE NO ESPÍRITO SANTO

Familiares e amigos de policiais militares no Espírito Santo começaram, na noite de sexta-feira, 3, a fazer manifestações impedindo a saída das viaturas para as ruas e afetando a segurança dos municípios.  Sem reajuste há quatro anos, os PMs reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho.

O motim dos policiais levou a uma onda de homicídios e ataques a lojas. Com medo, a população passou a evitar sair de casa e donos de estabelecimentos fecharam as portas. Os capixabas já estocam comida

Na segunda-feira, 6, a prefeitura de Vitória suspendeu o funcionamento das escolas municipais e de  unidades de saúde. 

Também na segunda, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para reforçar o policiamento nas ruas de cidades do Espírito Santo. Apesar do reforço, o clima de tensão se manteve no Estado. 

A morte de um policial civil na noite de terça-feira, 7, motivou uma paralisação da categoria na quarta, agravando ainda mais a crise de segurança no Espírito Santo. 

Após o fracasso nas negociações com policiais militares do Espírito Santo, o governo capixaba decidiu endurecer com os PMs e com as mulheres líderes do motim. No total, 703 policiais militares já foram indiciados por crime de revolta.

 

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,grupo-de-pms-comeca-a-voltar-as-ruas-de-vitoria,70001662255

Após quase 11h, reunião entre governo do ES e famílias de PMs termina sem acordo

Paula Bianchi

Do UOL, em Vitória

09/02/201721h56 Atualizada 10/02/201704h09 

Após quase 11 horas de negociação, a reunião entre representantes do governo do Espírito Santo e dos policiais militares e seus familiares terminou na madrugada desta sexta-feira (10) sem um acordo.

O encontro, que teve início por volta das 14h30, poderia encerrar a paralisação dos policiais militares que desde sábado (4) deixou em suspenso a rotina dos capixabas. Mas não houve um consenso, e as mulheres dos policiais deixaram o Palácio da Fonte Grande cantando o Hino Nacional - algumas delas chorando - e dizendo que o movimento continua.

"Nós apresentamos uma proposta de 43% e um pedido de anistia total para todos. Os secretários do governo disseram que não teriam como garantir a anistia nem o reajuste", disse uma integrante do grupo.

Pouco antes da meia-noite, duas mulheres já haviam deixado o prédio dizendo que a reunião estava tensa, com a comissão de negociação pressionando a todo momento pelo encerramento do movimento. 

Perto das 2h da madrugada, o secretário de Direitos Humanos, Júlio Pompeu, disse aos jornalistas que não será dado aumento imediato para a categoria nem anistia e que uma contraproposta do governo foi apresentada ao grupo com validade até as 6h desta sexta, sob pena de que policiais e familiares venham a sofrer "consequências" pela paralisação.

"Vamos seguir, daqui para a frente, todos os trâmites legais, todos os procedimentos necessários ao restabelecimento da lei, da ordem e da segurança. Qual será o procedimento? Cada momento vai dizer o que é necessário ser feito. E isso cabe às forças de segurança", alertou.

Segundo Pompeu, o Estado está no limite da Lei de Responsabilidade Fiscal, sendo acionado pelo Tribunal de Contas com frequência. "Isso nos impede legalmente de dar qualquer aumento a qualquer categoria funcional do Estado do Espírito Santo. É uma barreira legal", afirmou.

Sobre a anistia aos policiais, o secretário disse que o Estado nada pode fazer por tratar-se de uma decisão que cabe apenas ao governo federal. "Mas nos comprometemos a apurar responsabilidades individuais sem caça às bruxas", prometeu.

Em sua contraproposta, registrada em ata, o governo propõe:

- apresentar cronograma de promoção na carreira de policiais que estejam previstas em lei e ainda não tenham sido efetivadas;
- formar uma comissão para avaliar a carga horária de trabalho dos policiais militares, apresentando estudo a respeito no prazo de 60 dias;
- encaminhar à assembleia legislativa, dentro de 90 dias, proposta para que o bacharelado em direito se torne obrigatório para o ingresso na corporação;
- dar prosseguimento às negociações ao final do primeiro quadrimestre de 2017, quando forem apurados os resultados fiscais da gestão no período;
- desistir da ação contra as associações de classe (que prevê pagamento de multa por dia parado).

Ao ser questionado sobre a decisão do grupo de mulheres, manifestada ao fim da reunião, de continuar o movimento, o secretário disse que o governo espera agora uma posição de bom senso por parte dos policiais. "As mulheres não são policiais militares. Os servidores, os que estão amotinados, aqueles que têm responsabilidade para com o povo capixaba, são os homens e as mulheres de farda que estão nos quartéis. É a eles que me dirijo. São eles que estão transigindo o código penal."

As lideranças sentaram para conversar pela primeira vez com o governo na noite da quarta-feira (8). Na ocasião, o governador licenciado, Paulo Hartung (PMDB), chegou a comparar o movimento a um "sequestro" e afirmou que os policiais estão chantageando o governo. "O que está acontecendo no Espírito Santo é uma chantagem. É a mesma coisa que sequestrar a liberdade do cidadão capixaba e pagar resgate", disse o governador, que se licenciou do cargo no último dia 5 para se recuperar de uma cirurgia feita em um hospital paulista. Ele retirou um tumor da bexiga no dia 3, véspera do início da greve.

A fala de Hartung fazia referência a um pedido inicial de aumento salarial feito pelos policiais capixabas de cerca de 43%. Posteriormente, o grupo reavaliou a reivindicação, informando que proporia um aumento de 100%.

Situação no Estado

De acordo com o Sindicato dos Policiais Civis, 110 pessoas foram assassinadas desde o início da paralisação. Escolas, comércio, bancos e postos de saúde permanecem fechados desde segunda e o transporte público foi suspenso por tempo indeterminado depois que um rodoviário foi morto a tiros e homens armados ameaçaram incendiar dois coletivos na manhã desta quinta.

Apesar da presença do Exército e da Força Nacional, foram poucas as pessoas que se animaram a sair na rua nesta quinta. Durante todo o dia, comboios de militares patrulharam a cidade e no fim do dia blindados pilotados por fuzileiros navais circularam por Vitória e pela capital capixaba.

Pela manhã, cerca de 30 mulheres permaneciam em frente ao principal quartel onde estão os PMs em Vitória. Cada entrada conta com uma barraca grande, com colchões e cobertores, e um toldo. Há café, leite, pão, biscoitos, frutas, frios e até uma sanduicheira.

Em outros quartéis pela cidade há acampamentos parecidos, com familiares de PMs e policiais de folga posicionados em frente aos portões.

Entenda a crise no Espírito Santo

No sábado (4), parentes de policiais militares do Espírito Santo montaram acampamento em frente a batalhões da corporação em todo o Estado. Eles reivindicam melhores salários e condições de trabalho para os profissionais.

Desde segunda-feira (6), o movimento é considerado ilegal pela Justiça do Espírito Santo porque ele caracteriza uma tentativa de greve, o que é proibido pela Constituição. As associações que representam os policiais deverão pagar multa de R$ 100 mil por dia pelo descumprimento da lei.

A ACS-ES (Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Espírito Santo) afirma não ter relação com o movimento. Segundo a associação, os policiais capixabas estão há sete anos sem aumento real, e há três anos não se repõe no salário a perda pela inflação.

A SESP (Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social) contesta as informações passadas pela associação. Segundo a pasta, o governo do Espírito Santo concedeu um reajuste de 38,85% nos últimos 7 anos a todos os militares e a folha de pagamento da corporação teve um acréscimo de 46% nos últimos 5 anos.

Na noite de quarta-feira (8), integrantes do governo reuniram-se com representantes do movimento de familiares, que apresentou uma pauta de reivindicações --anistia geral para todos os policiais e 100% de aumento para toda a categoria-- e uma nova reunião, com a presença do governador César Calnago (PSDB), foi marcada para esta quinta-feira.

Em função da morte de um agente, os policiais civis também paralisaram os seus serviços na quarta. Eles devem decidir se entrarão em greve hoje, em assembleia conjunta com os agentes penitenciários.

Os ônibus também não circulam regularmente na Grande Vitória desde o início desta semana. Nesta quinta, a categoria decidiu que não voltará ao trabalho enquanto a polícia não retornar as ruas. A decisão aconteceu após o assassinato do presidente do Sindirodoviários (Sindicato dos Rodoviários) de Guarapari (ES).

Famílias fazem bloqueio em batalhões, mas policiamento segue nas ruas no RJ

Ronald Lincoln Jr., Pedro Ivo Almeida e Vinicius Castro

Colaboração para o UOL, no Rio*

10/02/201705h57 Atualizada 10/02/201711h26 

As manifestações de familiares de policiais militares na frente dos batalhões no Rio de Janeiro acontecem em dezenas de unidades pelo Estado, mas o bloqueio da saída dos PMs, tal qual havia sido anunciado ao longo da semana, ocorre efetivamente em poucos locais.

Um dos batalhões com a situação mais complicada da capital fluminense é o da Tijuca, na zona norte. Lá, familiares se mobilizam desde a 0h e não permitem que os policiais deixem a unidade desde as 6h. Alguns policiais que tentaram sair à paisana chegaram a ser revistados para que não saíssem com a farda na mochila no início do bloqueio, mas pouco tempo depois a saída foi proibida.

Com cartazes em mãos, elas reivindicam melhores salários e condições de trabalho para os agentes, cobram o 13° pagamento de 2016 e gratificações atrasadas. Reclamam ainda da estrutura da corporação que, segundo elas, põe em risco a vida dos policiais.

 

Muitos soldados que chegam ao batalhão agradecem o apoio das mulheres. Moradores da vizinhança, inclusive, oferecem água e café.

Vitória Nery, uma das manifestantes, perdeu o marido, morto durante em uma troca de tiros com traficantes em março de 2016. Ele era lotado no 6° batalhão, e deixou também uma filha de 8 anos do casal. O pai e o irmão de Vitória são PMs da ativa e ela teme por eles.

"Estamos aqui não só para protestar contra salário baixo e corrupção no governo. Estamos aqui pela vida. Não quero que aconteça com essas mulheres o que aconteceu comigo, quando perdi meu esposo."

O comandante do batalhão, coronel João Jacques Busnello, afirmou que os policiais não aderiram à paralisação. "Nossos policiais estão cientes de que têm trabalho a fazer. Mas eu entendo todos os lados", afirmou.

No 19º Batalhão (Copacabana) na zona sul, no Batalhão de Choque, na região central, e no 3º Batalhão (Méier), na zona norte, a situação diferente da Tijuca: os policiais furaram o bloqueio e realizaram a troca de turno das 6h, mas as mulheres pretendem impedir a saída das 16h.

Em outras partes da cidade

No entanto, os locais de bloqueio efetivo são registros pontuais. No 23º BPM, no Leblon, por exemplo, quatro mulheres tentavam impedir a saída de policiais para as ruas a partir de 5h50. Às 6h, no entanto, a primeira viatura saiu sem maior resistência.

Por volta das 6h10, um micro-ônibus chegou a ser impedido de deixar o local inicialmente. Porém, após conversa dos policiais com as representantes das famílias, o veículo pôde sair com os oficiais que trabalham na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Favela da Rocinha.

"Pedimos a compreensão de vocês. Temos cerca de 20 homens aqui que vão render nossa equipe na UPP da Rocinha. Se eles não chegarem, aqueles que lá estão terão dificuldade para sair. Além disso, ainda iremos perder território em uma área estratégica. Vocês conseguiriam colaborar? Nos outros casos, até podemos conversar. Mas é importante essa equipe sair para o trabalho", explicou o oficial que controlava o fluxo de saída do 23º BPM.

O 18º Batalhão, em Jacarepaguá, também tem mulheres na frente da unidade, mas os policiais trabalham normalmente.

No 27º Batalhão, em Santa Cruz, policiais militares estariam quebrando muros para furar o bloqueio de manifestantes, segundo familiares que estão no local. Procurada, a Polícia Militar não se pronunciou a respeito.

"95% nas ruas"

Em entrevista na frente do 6º Batalhão (Tijuca) nesta manhã, o porta-voz da PM, major Ivan Blaz, afirmou que a situação é de normalidade no patrulhamento da cidade. "Já estamos com 95% do turno no terreno. Temos problemas em casos pontuais e que estão sendo tratados separadamente", disse.

"As tropas de UPP na Tijuca enfrentam alguns problemas com rendição no momento. Enquanto os policiais não estão lá, criminosos se mobilizam." Ele também relatou problemas em Olaria: "O prejuízo no momento é apenas nas UPPs do bairro, apesar de que estamos com policiais lá. Muitos, porém, estão aqui no 6° BPM e precisam sair".

No início da madrugada, Blaz já havia pedido, em vídeo, que as famílias se manifestem a favor dos policiais, mas não bloqueiem as entradas dos quartéis da corporação.

"É fundamental que não esqueçamos o que está acontecendo no nosso Estado vizinho. No Espírito Santo, em poucos dias, mais de 100 pessoas foram mortas, incluindo policiais e seus familiares", disse. "Sabemos que a nossa situação é difícil, é complexa, mas não podemos de forma alguma permitir que esse cenário de barbárie chegue às nossas casas, às nossas famílias."

Durante a semana, uma série de rumores vinha circulando pelas redes sociais indicando que as entradas de quartéis pelo Estado seriam bloqueadas, a exemplo do que tem ocorrido no Espírito Santo desde o último sábado (4).

Rotina

A cidade do Rio de Janeiro continua com a rotina normal. Os transportes públicos, como barcas, trens e metrô, funcionam sem problemas nesta sexta-feira. Os ônibus urbanos e intermunicipais também circulam normalmente pelos bairros do Rio, Baixada Fluminense e interior do Estado. 

Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/02/10/em-video-porta-voz-da-pm-do-rio-pede-que-familias-nao-facam-bloqueio.htm