Polícia

Levantamento sobre a origem de 136 prisões na região da cracolândia indica que 41 pessoas não tinham residência fixa

1.  1/3 dos suspeitos de tráfico moram na rua


Veículo: Folha de S. Paulo

Data: 04/01/12

Estado: SP


Falta de endereço dificulta obtenção do benefício de a pessoa responder ao processo na Justiça em liberdade.

Marcos José de Oliveira Lima, 31, foi preso sob suspeita de tráfico de drogas na região conhecida como cracolândia. Estava com 2,3 gramas de crack e R$ 61.

Mesmo sendo réu primário e estando com pouca droga, é quase certo que não vai conseguir responder ao seu processo em liberdade por não ter um documento exigido pela maioria dos magistrados para esse tipo de concessão: comprovante de residência.

Lima é morador de rua.

Assim como ele, outras 40 pessoas presas por equipes do Denarc (departamento de narcóticos) na operação na cracolândia se declararam moradores de rua.

Isso significa que, praticamente, um a cada três presos não tem comprovante de residência e deve permanecer preso durante todo o processo. Os números do Denarc são das 136 prisões feitas até a última quinta-feira, das 196 prisões realizadas até então.

Para o delegado Wagner Giudice, diretor do Denarc, o perfil do dependente em crack é problemático porque muitos traficam para sustentar o vício. "Eles abandonam o vínculo familiar e vão morar na rua por conta da droga. Para subsistir, acabam traficando. Acabam vivendo do microtráfico."

Para o delegado, não há dúvidas sobre o crime atribuído a Lima. "Ele é um vendedor de droga de fato. A gente filma, acompanha. Não é que ele vende uma vez só. Ele vende continuamente", disse.


DEVER LEGAL

A Polícia Militar não informou quantos dos seus presos eram moradores de rua. Segundo o comandante Álvaro Camilo, a PM precisa cumprir o dever legal de prender, independentemente da condição social. "Quando ele está traficando, ele está prejudicando outras pessoas. Pode ser pouco, ou muito, está prejudicando alguém."

Para a defensora pública Virginia Catelan, o número de moradores de rua presos na cracolândia e a falta de endereço fixo dificulta em muito a obtenção de benefícios com os magistrados. Mesmo não tendo previsão legal, esse tipo de exigência é quase unânime na Justiça.

À noite, traficantes e usuários de drogas persistem na cracolândia

Um mês atrás era comum ouvir quatro frases gritadas na cracolândia: "Quem tem cinco pra rachar? Quem me vende um real? Eu tenho bloco! Ó a loira na reta!"

No fim de semana passado, contrariando a expectativa da Polícia Militar e do governo paulista, essas frases ainda eram ditas por traficantes e usuários que insistem em ficar na cracolândia do centro de São Paulo.

Antes de mais nada, é necessário traduzir cada frase dita pelo grupo. As gírias significam respectivamente: "Quem tem R$ 5 para dividir a compra de uma pedra de crack comigo, que custa R$ 10? Quem deixa eu dar um trago em seu cachimbo por R$ 1? Eu tenho pedra de crack para vender! Olha o carro da polícia se aproximando!".

Na noite de sábado e na madrugada de ontem, a Folha acompanhou a movimentação de policiais, dependentes químicos e traficantes nas principais ruas da cracolândia. Por cerca de seis horas, presenciou diversas vezes a venda de crack e o consumo por pessoas de várias idades, inclusive idosos e jovens.

Diferentemente do que ocorreu no início da operação policial, não houve violência por parte dos PMs.

Dessa vez, não usaram bombas de efeitos moral e balas de borracha, conforme constatado pela Folha no dia 7 de janeiro. O uso desses artefatos foi proibido pelo governo paulista. A polícia dispersou usuários ligando sirenes e os afastando com carros subindo em calçadas.

O jogo era de empurra-empurra. Enquanto a polícia seguia por uma rua, a turba ia para outra. "Temos de fumar andando", disse um viciado.

Em dia de sol, famílias começam a voltar para as ruas da região

A analista Cleide de Aguiar, 56, mora há sete anos em frente à praça Princesa Isabel (centro de SP) e a menos de cinco minutos do trabalho.

Tinha tudo para ser uma paulistana a menos a usar carro. Com medo dos dependentes de crack, sempre preferiu o veículo à caminhada.

Situação semelhante vivia Maria da Conceição, 41. Ela criou dois filhos e agora um neto em um prédio da rua Helvétia. Devido à precariedade do entorno, dizia-se obrigada a pegar ônibus para se divertir no parque Buenos Aires (avenida Angélica).


PRAÇA, À NOITE

Exemplos de quem não saía na cracolândia não faltam. Mas isso começa a mudar na região que tem mais de 400 mil moradores. "Agora, até a noite vou à praça com meu marido. Está cheio de crianças", diz Cleide.

Não muito longe dali, na rua dos Andradas, já é possível encontrar até quem não mora na região, mas já se sente seguro para se sentar à mesa do bar e ouvir um samba.

"Quando saí de casa, não me imaginava ouvindo samba na cracolândia", diverte-se Acácia Coialo, 52, que vive em Santos (litoral de SP) e veio à capital paulista visitar a Pinacoteca do Estado.

Para alguns moradores, porém, essa sensação de segurança pode ser passageira.

"Realmente mais pessoas transitam por aqui. Mas tenho receio de que essa operação seja só para 'inglês ver' e político aparecer na mídia", diz Carivaldino Soares, 74.

Até sexta-feira, a operação na cracolândia havia realizado 245 prisões e 194 internações -números superiores à média mensal dos últimos dois anos.

Operação apreende adolescentes em baile funk na Zona Sul de SP

Portal G1. 04/02/2012

Vinte e sete pessoas foram detidas em um baile funk que acontecia no meio da Rua José Manoel Camisa Nova, no Jardim São Luiz, na Zona Sul de São Paulo, na madrugada deste sábado (4). Entre os detidos estão 22 adolescentes. A Operação Pancadão contou com o apoio da Polícia Militar, da Guarda Civil Metropolitana, de agentes do Programa de Silêncio Urbano (Psiu) e de funcionários da Subprefeitura do M’Boi Mirim.

Todos os detidos foram levados para o 92º Distrito Policial, no Parque Santo Antônio. Os menores foram encaminhados em seguida para o Conselho Tutelar.

Segundo a Subprefeitura do M'Boi Mirim, a PM apreendeu 11 carros por desrespeitar a lei do silêncio. Outros cinco veículos foram apreendidos pelos agentes da Prefeitura por comércio ambulante irregular.

Em um bar, máquinas de caça-níquel foram encontradas. Por causa disso, o estabelecimento foi multado em R$ 32.598. O bar levou outra multa no mesmo valor por causa da lei do silêncio.

Na segunda-feira (30), 42 adolescentes foram apreendidos na Operação Pancadão também na região do M’Boi Mirim.

Letalidade da Rota é a maior em 5 anos

Veículo: Folha de S. Paulo

Data: 28/01/12

Estado: SP


Integrantes da chamada tropa de elite da Polícia Militar paulista foram responsáveis por 91 mortes ano passado.

Para novo comandante da Rota, é preciso analisar mortes no contexto de ações especiais do grupo.

A letalidade envolvendo policiais militares da Rota, tida como a tropa de elite da PM paulista, em 2011 foi a maior dos últimos cinco anos.

Entre mortos em casos de "resistência seguida de morte" (82) e homicídios dolosos (9), integrantes da Rota foram responsáveis por 91 mortes em 2011 -14,28% de todas as mortes (637) envolvendo PMs no Estado de São Paulo.

Em 2007, os PMs da Rota estiveram envolvidos em 47 mortes, o que representou 9,85% dos 477 mortos por PMs em todo o Estado.

Em sete anos, as mortes em 2011 só não superaram as de 2006, quando as forças de segurança enfrentaram três ondas de ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. PMs da Rota se envolveram em 93 "resistências seguidas de mortes" e 4 homicídios na ocasião.

O atual comandante da Rota, tenente-coronel Salvador Modesto Madia, que assumiu o posto em 22 de novembro de 2011, disse que as mortes causadas pelos seus subordinados precisam ser analisadas dentro de todo o contexto atual da Rota, "que é uma tropa de excelência", segundo sua classificação.

A análise de documentos de 84 meses (2005 a 2011) da Corregedoria da Polícia Militar feita pela Folha revela que os PMs da Rota tiveram ligação com as mortes de 470 pessoas no período.

Entre 2005 e 2011, 3.921 pessoas foram mortas por PMs no Estado de São Paulo, isso em "resistência seguida de morte" (3.074) e homicídio doloso (847). A média diária de mortos por PMs em São Paulo é de 1,53.

As 470 mortes ligadas aos PMs da Rota são 12% de todos mortos nesses sete anos.

Todas as mortes cometidas por PMs na Grande São Paulo e capital são investigadas pela Corregedoria da PM e pelo DHPP (departamento de homicídios), da Polícia Civil.

Alguns casos com PMs da Rota, como as mortes de seis acusados de tentar roubar caixas eletrônicos de um supermercado, na zona norte paulistana, em agosto, estão sob suspeita de terem sido resultado de uma emboscada.

Corregedoria da PM, DHPP e Promotoria investigam se os ladrões foram mortos quando já estavam rendidos.

Policiais são investigados por integrar grupo de extermínio

Data: 30/01/12

Estado: SP



A Polícia Civil e a Corregedoria da Polícia Militar investigam a suspeita de que cinco PMs do 36º Batalhão comandem um grupo de extermínio que age em Embu das Artes (Grande São Paulo).

Segundo a investigação, a suposta organização criminosa é formada também por um grupo de matadores de aluguel que trabalhavam para os PMs como seguranças em comércios da cidade.

Três matadores, segundo a polícia, já foram identificados e denunciados à Justiça por envolvimento em quatro mortes -incluindo a de uma mulher de 26 anos grávida.

A suspeita de policiais que participam da investigação, ouvidos pelo Agora, é que o grupo tenha assassinado mais de 50 pessoas nos últimos dez anos.

Os alvos seriam suspeitos de roubo a comércios vigiados pelos acusados.

Resposta

O advogado José Soares da Costa Neto, defensor de Edvaldo João Ribeiro, o Zóio de Bucha, disse que seu cliente "é inocente".

"Está havendo um engano em relação a ele, porque o meu cliente não é o Zóio de Bucha. Não sei de ligação dele com PM. O Edvaldo é motorista e adestrador de cães, tem família constituída e não possui antecedentes."

Felipe Ballarin Ferraioli, advogado de Cleto Silva Guimarães, desconsidera a acusação.

"O Cleto não faz parte de grupo de extermínio, nem conhece PM direito e não teve participação nesse crime", disse.

O defensor de Magno Carneiro de Macedo, Francisco Henrique Segura, disse que não se manifestaria sobre o processo "por questão de ética profissional".

82% dos paulistanos apoiam ação policial na cracolândia

Datafolha mostra que maioria crê que viciados vão se espalhar pela cidade, o que pode ser usado em campanha
VAGUINALDO MARINHEIRO
DE SÃO PAULO


O bate-boca entre pré-candidatos do PT e do PSDB à Prefeitura de São Paulo sobre a operação da Polícia Militar na cracolândia não encontra eco entre os eleitores.

Ouvidos pelo Datafolha na quinta e na sexta, 82% dos paulistanos concordam com a ação da PM para tentar desbaratar o tráfico e o consumo de crack na região central de São Paulo.

Quando questionados que nota atribuem à operação, 72% dão seis ou mais. A nota dez foi citada por 28%.

Entre as pessoas que têm o PT como partido de preferência, 83% concordam com a operação policial. A nota média foi 7,4.

Os tucanos são ainda mais entusiastas: 90% concordam com a forma como a PM agiu e dão uma nota média de 7,9.

Segundo estudiosos, isso reflete a demanda da população por uma polícia mais forte e atuante.

"O paulistano gosta desse tipo de polícia que impõe mais rigor. Mas é necessário que ela seja controlada e transparente, para evitar abusos", afirma o sociólogo Renato Sérgio de Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A ação na cracolândia paulistana, conduzida pelos governos municipal (PSD) e estadual (PSDB), começou no dia 3, menos de um mês depois de o governo federal (PT) lançar seu plano nacional de combate ao crack.

Houve denúncias de que tanto a PM colocada nas ruas de forma apressada quanto o plano federal tinham motivação eleitoral -PT e PSDB, principalmente, gostariam de usar na campanha a bandeira de combate à droga.

Imediatamente, o tema mobilizou os pré-candidatos.

Entre os tucanos, Andrea Matarazzo, secretário estadual de Cultura, afirmou que "o governo do PT consolidou o crack na região central [da cidade]", numa alusão à gestão municipal de Marta Suplicy (2001-2004).

Já Fernando Haddad, pré-candidato petista, disse que a ação da PM foi "desarticulada", "desastrada" e "marcada pela repressão".

Ao menos por enquanto, a cracolândia parece não ter afetado a intenção de votos na cidade. A questão é saber se o tema continuará na agenda eleitoral.

"O uso político da ação na cracolândia vai exigir muito cuidado", afirma o cientista político Fernando Abrucio.

Segundo ele, é claro que num primeiro momento ela favorece o governo estadual.

"A classe média vai aplaudir, porque considera que o problema está sendo enfrentado. Mas quanto tempo dura esse efeito midiático, de uma cracolândia limpa? Além disso, é preciso ver se os viciados não vão se espalhar, o que provocaria um efeito negativo", diz Abrucio.

RESPONSABILIDADE

Os paulistanos estão certos de que irão se espalhar.

Para 82% dos ouvidos, os usuários buscarão a droga em outra região da cidade.

Os entrevistados são também céticos com relação a uma solução definitiva para o problema -57% afirmam que não é possível acabar com o tráfico e o uso de crack na cidade de São Paulo.

Nesse ponto, os tucanos são mais pessimistas: 68% são descrentes.

Mas a maioria, independentemente do partido de preferência, isenta os poderes públicos pelo problema.

Para 24%, os culpados são os próprios usuários.

Os traficantes vêm em segundo lugar (22%).

Depois aparecem o governo estadual (16%), o federal (14%) e a prefeitura (6%).