Notícia – Diário de São Paulo – 09\05\2010
Vi meu filho ser morto pelos PMs
Maria Aparecida Oliveira enterrou o filho no Dia das Mães. Quatro soldados foram presos pelo crime na Zona Sul
tahiane.stochero@diariosp.com.br
Neste domingo, no Dia das Mães, tudo o que a dona de casa Maria Aparecida Oliveira gostaria de ganhar era um abraço do filho, o entregador de pizza Alexandre Menezes, de 25 anos. Em vez disso, Maria Aparecida enterrou o jovem, que morreu na madrugada de sábado, após ser agredido por quatro soldados da Polícia Militar em Cidade Ademar, na Zona Sul da capital.
A PM informou que os acusados foram presos por homicídio culposo (sem intenção de matar) e excesso de força.
O crime ocorreu às 4h de sábado, quando os PMs perseguiram Alexandre, após se depararem com o jovem numa moto sem placa e na contramão. Pelo boletim de ocorrência, o entregador estava em alta velocidade, não parou ao ser abordado pelos PMs e seguiu até a casa dele, na Rua Guiomar Branco da Silva. Encurralado, pediu socorro. “‘Mãe, mãe. Me ajuda’, ele gritava”, diz Maria Aparecida.
Descalça e de camisola, a dona de casa foi até a rua, onde viu o filho levar socos, chutes e ser imobilizado pelo pescoço pelos PMs. “Os vizinhos disseram que ele era gente de bem. Eu pedi para soltarem, que era meu filho. Mas me ameaçaram.”
Segundo Maria Aparecida, o entregador foi arrastado e espancado. “Pediram para chamar a polícia, mas foi a PM que matou meu filho”, diz.
‘Arma foi forjada’
Os PMs levaram Alexandre para o Hospital Sabóia, no Jabaquara, também na Zona Sul, onde a morte foi constatada por traumatismo craniano, hemorragia interna e asfixia mecânica.
Na delegacia, os soldados da 3ª Companhia do 22º Batalhão da PM apresentaram um revólver calibre 38 com dois cartuchos deflagrados. Disseram que encontraram a arma com Alexandre, só no hospital. “Surraram tanto ele que caiu celular, documentos. Tiraram toda a roupa, mas só viram a arma depois? Claro que foi forjado”, acusa a mãe.
“Sempre sonhei que meu filho caçula, de 13 anos, fosse policial. Hoje, ele me disse: ‘Mãe, como vou ser PM, se foi um deles que matou o meu irmão?’”, conta Maria Aparecida. Segundo ela, o filho comprou a moto em fevereiro e colocaria a placa amanhã. A Corregedoria da PM investiga o caso.
Motoboy foi torturado em quartel
A morte do entregador de pizza agredido por PMs na Zona Sul da capital neste fim de semana tem precedentes na corporação. No início de abril, o motoboy Eduardo Luís Pinheiro dos Santos, de 30 anos, morreu após ser torturado por policias militares fardados dentro de um quartel da PM na Zona Norte da capital. O caso só foi descoberto porque outros três homens, que haviam sido detidos com a vítima, presenciaram as agressões. O corpo de Santos foi encontrado por PMs da mesma unidade que o agrediu na rua e ele foi registrado como desconhecido. A PM prendeu 11 praças e uma tenente pela morte e o governo do estado pagou indenização à família do motoboy.
No domingo, a mãe do entregador de pizza Alexandre Santos, de 25 anos, chorou ao relembrar a relação dos dois casos. “Não quero Justiça, nem prisões, nem pedidos de desculpas. Meu filho não vai voltar. Eu quero que meu filho seja o último a morrer agredido nas mãos de policiais”, desabafou Maria.