A Experiência Narrativa como Resistência à Modernidade

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Resenha do Filme “Cidadão Kane” de Orson Welles

Por Caroline Ponce Duarte
carolineponce2@hotmail.com

      

A sociedade moderna expande-se rapidamente com o crescimento do fenômeno da globalização, explorado muito bem por Anthony Giddens (1938), provocando um crescimento descontrolado de novos meios de comunicação e deixando tradições ditas como arcaicas serem diluídas com o passar do tempo. A substituição de modelos comunicativos para outros mais modernos é uma tema abordado por Walter Benjamin (1892-1940) em suas considerações sobre o papel do narrador em seu ensaio Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, publicado em 1994, que discorre sobre os contos desse importante escritor russoSua abordagem considera as condições do narrador e a conduta que o leva a ser um dos principais responsáveis pelo resgate das tradições e ensinamentos, que enfrentam uma fase crítica com o crescimento da modernidade.

A partir do reconhecimento e estudo de determinada tradição de qualquer comunidade, observam-se os costumes nela presentes e as experiências ou mesmo memórias que são contadas, sendo o papel da narrativa trabalhar no modo como se contam tais experiências. A narrativa detém um papel importante socialmente que há muito corre o risco de ser extinguida. Ela é responsável por dar luz às experiências humanas, individuais e sociais, pelo seu interesse nas histórias contadas, seja por viajantes distantes ou por moradores fixos de um determinado lugar.

A narrativa pode ser vista como um resgate dessas experiências que busca ressaltar a importância do passado, como se fosse uma fotografia que detém a espontaneidade do momento e a certeza de que ele não será esquecido pois foi preservado de alguma forma. A relevância de uma narração no processo de resgate de experiências contadas é uma significativa resistência ao desaparecimento da narrativa, do conhecimento aberto, pois narra vida, acontecimentos, contos de alguma pessoa de algum segmento social dentro de um período histórico que ajudam a entender as dificuldades presentes das pessoas em determinadas situações.

É interessante notar que o resgate das experiências que a narrativa realiza transpassa a utilidade das informações, pois elas são pontuais e passageiras, já trazendo consigo todas as explicações fechadas sobre determinado assunto. Já a narrativa detém a expansividade ao seu lado, não é um assunto delimitado que se conclui por si só, mas sim um emaranhado de possibilidades de interpretações, ela não se entrega, depois de muito tempo é ainda capaz de se desenvolver. Já não é de papel passageiro como acontece com a informação, mas sim atribuída de experiências utilitárias, de sabedoria.    Distintivamente da narrativa, o romance surge como outra forma de contar histórias, para divagar sobre o indivíduo solitário e seus percalços na vida, possuindo um desfecho praticamente redondo depois de apresentar uma estrutura universal. O romance se distingue da narrativa pois não utiliza as experiências como base da sua história, não possui característica oral e também não procura servir-se dela.

É crítico pensar que a narrativa está em vias de extinção justamente por se alimentar e ressaltar a experiência concebida a partir de histórias orais, à que se mantém as mais fiéis possíveis. A comunicação tão comum, na qual compartilhar tradições é uma tentativa de mantê-la forte e onipresente na história, começa a falhar na medida em que a troca de experiência não é mais valorizada. A comunicação vai se tornando progressivamente escassa, inútil. Não se enaltecem mais as tradições, a sabedoria ancestral, pelos quais princípios éticos e morais vão se tornando estranhos para si mesmos, se despersonalizam juntamente com a cultura.

A narrativa que se move a partir das experiências procura expor um olhar atento às histórias contadas para que elas se assemelhem muito à real experiência da pessoa que a contou. O olhar de quem transcreve no papel deve ser atento e utilitário, trazer algum conselho, dotado de uma sabedoria ao final da sua narrativa, pois experiência é sabedoria. Faz parte do exercício narrativo estimular a verbalização dessas experiências para que elas possam ser materiais de conhecimento, abrindo espaço aos ensinamentos morais. As falhas de comunicação empobrecem essas informações e a arte de narrar cai no esquecimento. Os contos dos subalternos, a atenção que se volta aos marginais que já não são escutados pela sociedade, estimula o conhecimento ínfimo de uma parcela que nunca está inserida nos espaços, que só possui voz a partir das escolhas narrativas que são direcionadas à ela.

As novas formas de comunicação desenfreadas da sociedade moderna estimulam cada vez mais as outras formas de transmissão do conhecimento, elas são mais ágeis e atingem quantidades maiores de um mesmo assunto ou acontecimento. Porém são informações e também histórias contadas por uma narrativa terceira, impessoal, que muitas vezes escreve a sua visão de determinado assunto, deixando sua posição pessoal afetar a verdadeira realidade do que escreve e, principalmente, sobre quem escreve. Como um jornalista burguês que vai escrever uma matéria sobre problemas de uma classe que está às margens da sociedade e não consegue ser fiel à verdadeira história, por ser um péssimo profissional ou por realmente pensar diferente desta outra classe e não querer dar espaço para a concepção dos próprios, que acaba calando a narrativa popular, a verdadeira narrativa neste caso.

Não se pode confiar em uma história que não seja a mais fiel possível aos acontecimentos reais, e quem vive esse desembaraçar de fatos sabe contar o que se passa de acordo com o seu ponto de vista, sua posição. Qualquer um pode narrar ou trazer informações sobre qualquer assunto, porém a arte de narrar é natural, é atenta e cuidadosa com a ordem dos fatos, com os detalhes da experiência e também com a veracidade delas. Seja qual for a pessoa que irá narrar sobre determinada coisa, em tempo algum a narrativa será extremamente fiel quanto a narrativa da pessoa mais excepcional para relatar e escrever sobre.

Para além da escrita, a narrativa também está presente nas relações sociais, como alguém que conta um acontecimento a partir da sua perspectiva, que também pode ser contada por outra pessoa com base na sua percepção do acontecimento. É muito comum ouvir dois ou mais lados de uma mesma história, pois cada um percebe o mundo de acordo com seu ponto de vista. Podemos notar isso de forma bem peculiar no filmeCidadão Kane (1941) do diretor Orson Welles, no qual a narrativa é desenvolvida a partir de vários pontos de vista, mas não na ótica do diretor, como é muito popular no cinema e muito menos na ótica do personagem principal, que desperta um mistério muito grande a partir do qual conduz a estrutura do filme.

Cidadão Kane leva o telespectador a uma investigação realizada por um jornalista que busca achar o significado da última palavra de Kane, personagem principal que morre na primeira cena do longa. Contudo, a única pessoa que pode afirmar com certeza a última palavra do protagonista em questão é o telespectador, o único que está “presente” em seu leito de morte e pode confirmar sua palavra. É por isso que a trama conduz-se tão original e engenhosamente, devido à questão de como os jornalistas se mobilizam tão ambiciosamente para compreender seu significado, enquanto que para o telespectador a dúvida também é pertinente, contudo ela se apresenta mais pessoal, como se ele soubesse um pouco mais do que todo o resto.

A partir desse momento o filme apresenta uma narrativa épica, pois gira em torno de um grande homem e a tentativa de retomar o curso das coisas a partir da memória de pessoas que se relacionavam com ele, em razão de que a memória é a maior fonte de conhecimento de todas as faculdades. A memória é o que constrói a narrativa do filme, tentar descobrir quem foi cidadão Kane, homem tão influente em seu auge e depois totalmente esquecido em sua fortaleza, leva o jornalista a usufruir da forma mais genuína da narrativa: a experiência.

O filme vai apresentando o protagonista a partir das perspectivas de algumas pessoas, cada uma apresentando suas memórias de acordo com a relação que tinham com ele, esposa apresentando mais seus problemas amorosos, expectativas frustadas do marido e sua decadência no final da vida, amigo expondo as contradições e rebeldias no âmbito do trabalho e suas táticas no jornal. Vê-se que a trama do filme se desenvolve a partir de memórias de pessoas próximas, o que transforma os narradores em pessoas suspeitas que contam suas concepções e memórias sobre o falecido Kane, mas que não são oniscientes, elas narram a partir de seu ponto de vista mas não o que realmente houve de fato ou o seu real significado.

O filme se apresenta como uma investigação que busca compreender um significado a partir da recuperação do quebra cabeça da memória, falhando no final por não ter dado a necessária importância à pessoa em questão, às suas coleções de artefatos que escondiam um objeto pessoal carregado de memória e significado: a resposta para sua pergunta. Para Benjamin a morte do narrador se traduz exatamente à isso, a essa perda de enfoque no mais sagaz fio da memória. Um nômade por excelência, que já passou por muitos lugares e conheceu uma diversidade de culturas pode possuir uma quantidade absurda de conhecimento a mais que um camponês que passou a vida toda cuidando da sua terra, porém a intimidade e profundidade do camponês é muito mais significativa que a do viajante.

 

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. “O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

GIDDENS, A.Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LEITE, Sidney Ferreira. Cinema Brasileiro: das origens à Retomada. – 1ª. Ed. – São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. – (Coleção História do Povo brasileiro).

XAVIER, Ismail. A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Graal/Embrafilme, 1983.

XAVIER, Ismail. Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal. Editora Brasiliense, SP. 1993

 

Filmografia

CIDADÃO Kane. Direção: Orson Welles. Fotografia Gregg Toland . [S.l.]: RKO Rádio Pictures , 1941. 1 DVD (119 min). Mercury Productions . Título original: CITIZEN Kane.

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