A História não é de Deus nem do Diabo, é do Homem

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Deus e o Diabo na terra do sol. Direção: Glauber Rocha. Brasil. Copacabana Filmes, 1964. (125 min). p.b.

Por Stephanie Gaspar

O movimento cinematográfico brasileiro “Cinema Novo”, ocorreu por volta dos anos 60, num período de conturbações sociais, repressão e censura. Tinha por lema uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, buscava contar a história que o oficial sempre ocultou, ia totalmente em desencontro ao cinema hollywoodiano, que esconde o cotidiano do subalterno, que só conta a história do herói, à serviço de acalentar nossos anseios e faltas pequeno burguesas com uma bela e fervorosa história de amor ou aventura que nada se parece e ao mesmo tempo se parece muito com o nosso dia a dia. Esse romance do indivíduo, privadamente solitário em sua idiotice egoísta, sem rumo e sem sentido, representa o fim da arte de contar e caracteriza a sociedade burguesa moderna, que criou a noção de futuro, um futuro que nunca chega, depositamos nele a esperança de sairmos do presente, mas não levamos em conta que estamos presos nesta eterna insatisfação e busca pela completude feliz.

O Cinema Novo veio para quebrar com o estereótipo de Brasil dos filmes “a la Carmem Miranda”, com o imaginário das bananas e morenas tropicanas, veio para contar a história da margem, que está fora da moldura, a esquerda da foto, fora do foco, que não se procura mostrar. Problematiza o belo e denuncia esse abismo social intensificado no processo histórico capitalista, onde a rapidez das mudanças sociais fizeram com que nossas relações humanas fossem coisificadas.

O filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, lançado numa data marcante para o Brasil, 64, feito pelo cineasta brasileiro Glauber Rocha – um dos maiores gênios deste movimento -, nos remete, de cara, a obras brasileiras a altura como Vidas Secas de Graciliano Ramos, Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e Os Sertões de Euclides da Cunha. É notável também, e este é o foco da discussão que quero trazer para pensarmos juntos, uma busca pelo retorno da experiência coletiva, que, na modernidade, cada vez mais se perdeu e deu lugar a histórias individuais contadas por um romance.

Há uma belíssima inspiração na literatura de cordel, que, explicando bem, é um gênero literário com origem nos trovadores medievais da Europa, homens narradores de suas andanças, angústias, amores, risadas, críticas sociais, e que no nordeste brasileiro, tempos e tempos depois, se disseminou popularmente para contar causos do cotidiano, lendas e religiosidades, em versos publicados em folhetos, ilustrados com xilogravuras, e que podem ser declamados e musicados acompanhado de uma viola, com o intento de que a história corra pelos ares do tempo e passe de geração a geração, de memória a memória, considerando também que “quem conta um conto aumenta um ponto”, contribuindo para a constante construção da realidade. Não esquecendo, há semelhanças também com o repente, expressão cultural da região, essencialmente oral, com destaque para a criação de bate-pronto de versos e rimas cantadas.

Na literatura de cordel, um dos temas mais frequentes são sobre o messianismo e o cangaço, este último ilustrado na figura de lampião (Virgulino) e Maria bonita e é justamente esta história que o cineasta Glauber Rocha procura trazer à tona, quiçá com a tentativa de expressar a perspectiva local, nos fazendo pensar, a partir dela, sobre a violência, a fome, a superstição, a fé, a seca, a cerca, a luta e a comunhão entre Deus e o Diabo, que se confundem e se entrelaçam e outros dilemas peculiares da vida no sertão nordestino, a Terra do Sol.

No filme, o protagonista do enredo, da estória, é Manuel, beato e cangaceiro, que ao lado (nem sempre) de sua esposa Rosa, passa por situações e provações entre a fé, a esperança, o medo e a desgraça, representados nos conflitos entre as figuras de Santo Sebastião, Corisco e Antônio das Mortes.

Mas, ao digerirmos o filme, podemos perceber que o real protagonista talvez seja outro, um outro inesperado e fora do enredo. A própria tradição. Recontada pela história oral, ancorada pela memória coletiva e dando voz aos sujeitos excluídos da História contada nos livros, ou seja, é esta valorização de uma outra escritura da história, escrita por nós, escrita pelos reais sujeitos, pelo homem como categoria, que parece ser prezada em contraposição ao fim da narração na modernidade e no mundo capitalista. O diretor, ao mesmo tempo que estimula esta interpretação, aparenta não direcionar.

Se o nosso olhar sobre o real corresponde a apenas uma perspectiva do acontecimento, passa pelo filtro da nossa subjetividade e consciência, da nossa história, e, por vezes, até da nossa miopia ou astigmatismo, o olhar através da lente da câmera, da objetiva, o olhar do filme, com sua reprodução técnica e escolhas de composições imagéticas e estéticas, produzem e reproduzem a realidade, contando com mecanismos que aceleram, ampliam, revelam, manipulam e potencializam a capacidade do “ver”.

Ou seja, apesar de termos em mente que não há uma plateia viva, que talvez o ato tenha sido repetido incessantemente, que a personagem é um ator e está encenando para milhões de aparatos técnicos, ainda assim, temos a sensação de não estarmos sendo direcionados. Isso é potencializado até pelo aspecto técnico e estético utilizados para a gravação das cenas, onde a câmera em mãos se movimenta livremente enquanto a estória simplesmente acontece em nossas frentes, independente do espectador, como se não houvesse um diretor.

De acordo com o que é preanunciado em seus letreiros de abertura, o romance é contado na voz e violão de Sergio Ricardo, – e também conta com as obras de Villa Lobos – isto nos indica que a música terá mais do que um papel secundário nesta produção, ela é um narrador presciente, antecipa os acontecimentos mas sem nos revelar por inteiro, ela nos instiga e intermedia as cenas e é usada de maneira espetacular. E a participação, no final, de Julio “o cego” e seu violão pendurado nas costas, como um narrador que acompanha a jornada de Manuel, é que nos remete à inspiração na literatura de cordel, onde é o violeiro que nos conta a história musicada como explicitado acima.

O que é contar história? Ela está a serviço de alguma coisa ou alguém? A narração é importante para a constituição do sujeito, para a reconstrução ou manutenção do passado, se atem a história oficial ou a história que não nos é contada. De um mesmo acontecimento podemos ter diferentes narrativas dependendo do lugar de onde a história é vista, do tempo em que ela é contada ou recontada. Escondendo algumas e revelando outras, seguindo o ritmo da memória, da lembrança, da subjetividade do que queremos lembrar e do que queremos esquecer. Por isso, acredito que não haja a Verdadeira História, a narrativa e a memória estão diametralmente distantes da verdade, dessa verdade única, universal e imutável e prontacabada.

É mais importante quem foi o rato que roeu a roupa do rei de Roma do que o que foi a política do pão e circo e o que ela representa para a nossa contemporaneidade, por exemplo. Observamos com Benjamin que o mundo das informações, da verificação imediata, é onde cada manhã recebemos notícias de todo o mundo, e que, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes pois os fatos já nos chegam acompanhados de explicações, “tudo mastigadinho”, sem reflexão crítica, não processamos nada. Então podemos pensar em uma resposta para a pergunta acima, “a história está a serviço de alguém?” sabemos agora que, na nossa exacerbada modernidade, da narrativa que não é.

Apoiado na narrativa tradicional que traz de volta a comunidade da experiência, recebemos então o delicado convite de, ao ver e rever a obra de Glauber, continuarmos a história que nos está sendo contada, no sentido de nos dar a chance de intervirmos na realidade, e construirmos a história, acrescentarmos sugestões, dar mobilidade a ela. Podemos pensar além do que é visto, divagamos sobre faíscas de ideias que o filme nos dá, produzimos a estória e a história, sem encerrá-las, fechando engessadamente. No final sem final, podemos pensar que assim como Manuel, corremos do sertão à procura do mar, o mar chega e então? A nossa corrida parece não cessar.

 

Referências Bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas. Vol.I. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.

VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Glauber Pátria Rocha Livre. São Paulo: SENAC, 2001.

Deus e o Diabo na terra do sol. Direção: Glauber Rocha. Brasil. Copacabana Filmes, 1964. (125 min). p.b.

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