Resenha: Cortina de Fumaça, de Rodrigo Mac Niven

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Por Marina Graziela Barbim


O longa-metragem documentário “Cortina de Fumaça” é o primeiro filme com caráter documental do diretor brasileiro Rodrigo Mac Niven, que também produziu o documentário média-metragem chamado “Ei, you! O Haiti antes do terremoto”, o diretor que também é jornalista, fotografo, já foi finalizador de programas de TV e está ligado ao audiovisual ousou e arriscou em seu novo projeto ao relatar um tema polemico nas mídias sociais atuais, o uso da planta Cannabis Sativa, mais conhecida como “maconha”. De forma independente, sem o apoio de patrocinadores e incentivo fiscal, o longa foi produzido pela TVA2, com apoio da empresa da família J.R. Mac Niven Produções. O trabalho foi totalmente autoral e quase sem nenhuma ajuda financeira de patrocinadores, uma vez que o tema não obteve apoio governamental por tratar o assunto de forma mais aberta.

Argumentando através de uma nova perspectiva sobre o uso de substancias que alteram o bem estar humano, o debate se pauta na planta mais comentada dos últimos tempos, uma vez que a sociedade ainda tem dificuldades em entrar em um consenso e lidar com um assunto que gera polemica. O diretor levanta novas questões sobre seu o uso, de forma a chamar a atenção sobre os preconceitos e moralismos existentes sobre o assunto considerado um verdadeiro tabu e tratado de uma forma que pode estar sim, sendo equivocada. Utilizando da analise de políticas publicas de drogas no Brasil e no exterior o diretor constrói o documentário desmistificando a prática usual da Cannabis, mostrando o outro lado da questão.  De forma a criar paralelamente ao senso comum sobre sua prática e uso, o diretor nos mostra uma nova visão com base em uma outra opinião fundamentada no argumento de médicos, psicólogos, policiais, políticos, antropólogos e cientistas renomados que relatam a utilização da maconha sob uma perspectiva menos convencional- moralista, sendo assim de forma mais realista aos estudos recentes e pouco comentados sobre a condição da mesma.

Através de um amplo levantamento cientifico e de pesquisa o documentário conta com a participação de intelectuais e pesquisadores na área, como o ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o ex- chefe Geral do Estado Maior do Rio de Janeiro, o professor de História da USP Henrique Carneiro, o professor da Universidade de Madri Antônio Escohotado, que foi um dos maiores intelectuais a publicar um livro sobre a história das drogas chamado “Historia General de las drogas” sobre o tema dentre outros diversos pesquisadores na área que chamam a atenção para o debate sobre as drogas, em especial, a maconha, sobre outro ponto de vista. O debate vai pautar questões como a de que as drogas sempre estiveram presentes em todas as culturas desde os mais primitivos ancestrais e foram usadas de diferentes formas, como, de maneira recreativa, médica ou sagrada. A forma sagrada é bastante comentada por fazer parte de um rito de passagem ou de iniciação em algumas culturas, sendo considerado como um alimento da alma, de forma psíquica. As substancias ajudaram no desenvolvimento cientifico com a manipulação das plantas e da psicologia no momento em que intensificaram processos mentais humanos, que na realidade são fatores já existentes que apenas são desenvolvidos e intensificados com o uso de substancias psicoativas.

Dessa forma, o autor parte para a ideia de que as drogas estão postas na sociedade desde o primórdio dos tempos e que cabe a nós aprender a conviver com elas da melhor forma possível, já que de acordo com a realidade as chances do uso de drogas aumentarem e se diversificarem no mercado está cada vez maior. Acredita-se na classificação das drogas entre as mais prejudiciais e as mais leves para o organismo, onde, por exemplo, de acordo com estudos, o álcool e o tabaco causam mais mortes, são mais prejudiciais à saúde e ao meio social do que a maconha. O filme ressalta também para o amplo comercio vigente da planta Cannabis Sativa, com o uso para mais de 2.500 possibilidades, como, por exemplo, para a produção alimentícia, de cosméticos e para uso medicinal. Sendo dessa forma, do ponto de vista industrial, uma matéria prima com inúmeras possibilidades de comercialização.

O uso terapêutico é um dos mais citados, após estudos com o THC, composto presente na Cannabis Sativa, descobriu-se que o uso controlado e certo poderia produzir efeitos mentais positivos comprovados no organismo humano, pois auxilia no tratamento da dor, contra náuseas e vômitos produzidos pelo tratamento da quimioterapia, no uso contra a inapetência, que seria a ausência de fome causada em situações como a fase final da AIDS e do doente com câncer, melhorando a qualidade de vida das pessoas portadoras de algumas dessas doenças.  Em alguns países como nos Estados Unidos o uso medicinal da maconha está liberado em 15 países.  Dessa forma, especialistas atentam para o fato de que o uso da maconha pode ser positivo, principalmente em casos de doenças graves, e demonstram que a mesma não causa dependência e nem mortes como álcool, aspirina ou tabaco, por exemplo, alias, o documentário ressalta para o fato de nunca no mundo ninguém ter entrado em óbito por causa do uso da Cannabis.

Outro fato relevante do documentário atenta para o fato de que a maconha não é porta de entrada para outras drogas, isso se comprova através do fato de que cada droga possui um efeito colateral e o da maconha é relaxante, o da cocaína é estimulante, não havendo qualquer relação entre uma ou outra, sendo considerado porta de entrada para outras drogas o álcool, isso tudo sendo dito através de dados comprovados e citados no longa. A proibição da maconha também é vista como algo negativo, pois, ao se ir comprar maconha com um traficante ele acaba tendo contato com outras drogas mais pesadas e aí sim, através do mercado negro e da proibição outros vícios podem acontecer, com o contato com o traficante.  Ressalta-se a partir daí o fato de que as políticas públicas de repressão acabam se tornando desastrosas, mostrando que a ignorância e o preconceito ainda predominam.

Foi a partir de 1945 através da criação da ONU que se começaram os primeiros moldes de controle internacional das drogas, a partir daí vieram às proibições e combate a guerra do crime, contra traficantes, que na realidade tem como pano de fundo interesses geopolíticos, geoestratégicos e geoeconômicos, segundo o Walter Maierovitch, jurista, ex-titular da secretaria nacional antidrogas. A saúde publica, junto a moral e a segurança publica se unem à proibição gerando outros fatores como a criação de criminosos, de usuários entendidos como criminosos e mercadores entendidos como criminosos, segundo Thiago Rodrigues professor de Relações Internacionais da UFF e Nu-SolPuc-SP.  Dessa forma Vera Malaguti, secretária-geral do instituto carioca de criminologia, vai falar sobre um “populismo criminológico”, ou seja, um discurso que vai sendo repetido e que não informa mais que produz um senso comum criminológico e que nada mais faz do que aumentar a quantidade de pessoas em cárcere, no qual a maioria deles são negros e pardos, já demonstrando outro fator social e que intensifica ainda um processo de criminalização da pobreza. (Orlando Zacconi, delegado de polícia civil-RJ)

“Os burocratas que constroem as políticas de drogas tem usado a proibição como uma cortina de fumaça para evitar encarar os fatores sociais e econômicos que levam as pessoas a usar drogas. A maior parte do uso ilegal de drogas é recreasional, a pobreza e o desespero estão na raiz da maioria do uso problemático da droga.” (John Grieve, Inteligência criminal Scotland Yard)

O fato é que todo esse sistema de drogas é extremante complexo e tem um fundo social gravíssimo, envolvendo plantio, produção, distribuição e venda, dentre um total final problemático que envolve além do mais uma lavagem de dinheiro enorme conivente com o sistema financeiro (Cristiano Maronna, advogado-diretor do instituto brasileiro de ciências criminais), mostrando que há diversos interesses envolvidos e que a problemática geral é muito maior e além do imaginável e que notadamente tem sido tratado de forma errônea. Dessa forma o documentário-metragem de Rodrigo Mac Niven nos trás essas diversas questões envolvendo o uso de drogas, a criminalidade, o sistema como um todo, mostrando uma nova visão além do senso comum para a situação e que se encerra com a citação do filme:

“As drogas são uma tragédia para os viciados, mas criminalizando o uso transforma essa tragédia num desastre para a sociedade, para os usuários e para os não usuários igualmente. Nossa experiência com a proibição das drogas é uma repetição da nossa experiência com a proibição das bebidas alcoólicas.” (Milton Friedman, prêmio Nobel de economia) 

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