Silvio de Azevedo Soares
Nesta resenha, além de apresentar sucintamente as três dissertações que compõem Genealogia da moral de Friedrich Nietzsche, procuro indicar – através de breve revisão bibliográfica – as repercussões desta obra na teoria sociológica. Independente de qualquer tentativa de rotulação e enquadramento de Nietzsche (como iconoclasta, reacionário, romântico, etc.), destacam-se as influências da obra em questão sobre inúmeros autores de distintas correntes e escolas do pensamento sociológico.
Introdução
Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as “coisas boas”!… (NIETZSCHE, 2009, p. 47).
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) – professor de grego e latim por onze anos na Universidade da Basileia (Suíça) e que por outros onzes anos levou uma existência errante em pequenas cidades da Itália, Suíça, França e Alemanha – apresenta, no chamado período maduro de sua filosofia, polêmicas reflexões sobre os valores morais da sociedade europeia judaico-cristã. Nessas reflexões sobre a moral, Nietzsche almejava promover uma transvaloraçãode todos os princípios morais, uma nova valoração desses princípios. São obras desse período: O Anticristo (1888), Ecce Homo (1888), Além do Bem e do Mal (1886) e Genealogia da moral (1887). Essa última redigida como complemento elucidativo da obra anterior.
Estruturada em três dissertações filosóficas (escritas em irônicos aforismos), “Genealogia da moral” visou apresentar as contribuições de Nietzsche, à discussão que lhe era contemporânea, sobre a emergência de atitudes e sentimentos morais, como o valor de bom e mau, a humildade, a justiça, o altruísmo e a crença na verdade. A partir de especulações filosóficas e conjecturas no âmbito da antropologia e da história, Nietzsche pretendeu evidenciar que não haveria na constituição dos valores morais nenhum princípio metafísico, divino ou transcendente.
Em diversas passagens, o filósofo também tece críticas aos filósofos utilitaristas ingleses (sobretudo Herbert Spencer e Stuart Mill) que, em uma perspectiva a-histórica, correlacionam a valoração moral à princípios de utilidade e felicidade. Para Nietzsche, por essa abordagem, esses autores não compreenderam a gênese real dos valores morais: a produção e a transformação dos valores morais assentam-se no solo de complexas relações de poder (social, econômico, cultural e político).
Dessa forma, a genealogia apresenta-se em Nietzsche como um programa de desconstrução da moral, evidenciando-se o caráter histórico e as motivações humanas na valoração de princípios. A moral desmistificada pela genealogia (que se mostra como construção social e instrumento de poder) traz à luz o seu caráter de violência instalada em um sistema de regras.
Genealogia da moral traz também dois conceitos fundamentais desse período, considerado de maturidade, da produção de Nietzsche: as noções de vontade de poder (ou vontade de potência) e de moralidade dos costumes. A vontade de poder pode ser compreendida como um princípio metafísico e ontológico do Universo, uma multiplicidade de forças (presentes em tudo, das reações químicas mais elementares da natureza à construção das constelações, passando pela complexidade da mente humana) que visam expandir-se e superar-se. Vontade de poder como princípio espontâneo e dinâmico da realidade, essencialmente instável e em luta. Já a noção de moralidade do costume, de tom mais sociológico, relaciona-se à construção social da obediência – através da prescrição de sacrifícios, martírios e dores – à certos princípios convertidos em valores morais; diz respeito também à uma certa homogeneização nas condutas dos homens (refreados em sua vontade de poder) a partir de parâmetros tornados morais.
Genealogia da moral: três dissertações sobre as proveniências dos valores morais
Na primeira dissertação, intitulada “Bom e mau”, “bom e ruim”, através de conjecturas históricas sobre a moral e de uma análise etimológica dos termos “bom” e “ruim”, Nietzsche visou demonstrar que “bom”, em diferentes idiomas (como grego, latim, celta), relaciona-se historicamente com a nobreza e aristocracia social: “bom” é o superior, espiritualmente nobre, bem nascido e privilegiado, de constituição física poderosa e saudável. Valoração construída inicialmente a partir de uma valorização de si – “moral dos senhores”. Como referente negativo posterior dessa valoração cavalheiresco-aristocrático (assim denominada por Nietzsche), o “ruim” é o inferior, o plebeu, o comum (não que isso significasse que o modo de vida plebeu era moralmente condenável, apenas era inferior). Assim, atitudes como orgulho, força, riqueza, coragem eram características dos nobres, enquanto humildade, altruísmo, pobreza, fraqueza, bondade eram típicas dos plebeus ou dos escravos.
Já a valoração “bom e mau” constitui-se, para Nietzsche, a partir do ressentimento do plebeu (por sua impotência, por ser fisiologicamente fraco, por seu sofrimento) que se torna espírito de vingança contra os nobres: a criação de um ideal de negação da vida, de negação do ideal da nobreza – uma moral antissensualista, um modo de valoração sacerdotal-ascético, “moral dos escravos”. Nessa valoração, o ressentimento dirige-se para fora, há a constituição de um alvo expiatório: “mau” é o outro, o nobre, o senhor – conceito a partir do qual, posteriormente, concebe-se a sua imagem como “bom”.
Em suma, nessa primeira dissertação, Nietzsche diferencia “bom e mau” de “bom e ruim”: aquela, a oposição que expressa valores judaico-cristãos, resultado da moral escrava; esta, a oposição ingênua da moral nobre, do mundo antigo clássico, subvertida pelos fracos e ressentidos.
Na segunda dissertação, “Culpa”, “má consciência” e coisas afins, Nietzsche aborda, inicialmente, a produção da memória, nos homens, dos elementos necessários para a vida em sociedade, dos parâmetros morais dominantes. A memória seria constituída, originalmente, somente através de meios terríveis de infligir dor e sangue (torturas como apedrejamento e empalamento). Nos períodos anteriores à moralidade dos costumes, a dor era parte das relações entre os homens, fundamentadas na relação credor-devedor: infligir dor como forma de receber dívidas e estigmatizar o corpo como forma de memória do compromisso não quitado. No entanto, os homens não se envergonhariam de sua crueldade nesses períodos, já que a dor era uma necessidade externa, componente das relações com os outros.
Nessa relação credor-devedor Nietzsche aponta as origens da noção de “justiça”: o direito do credor à crueldade, o direito de desprezar e maltratar o corpo do devedor; fazer sofrer como gratificação pelo dano sofrido. Dessa forma, o valor de “justiça” provém dos fortes, dos desejos de domínio e de posse.
Para Nietzsche, originalmente, as ações de ofender, violentar, explorar, destruir não seriam, essencialmente, injustas, pois tais ações consistiram na vontade de poder atuando sobre a vida. Com a inversão da moral nobre, realizada pela valoração sacerdotal ascética do homem de ressentimento – com a moralidade dos costumes decorrente e a súbita vida em uma sociedade pacífica como consequência – o homem se envergonha de sua crueldade e desses instintos atrozes e agressivos, componentes da vontade de poder, que antes eram dirigidos para fora, para outros homens. Por conseguinte, tais instintos voltam-se para dentro do próprio homem: o ser humano passou a lacerar, perseguir, maltratar e destruir a si mesmo. A “má consciência”, a “culpa” surgem dessa crueldade reprimida no interior do homem. Da relação credor-devedor passa-se para relação credor-culpa e a memória se constitui, então, como dor interiorizada. Enfim, nesse ensaio – antecipando, de certa forma, as observações de Freud, de 1929, em O Mal-estar na Civilização (2011) – Nietzsche pretende expor os custos em mazelas e sofrimentos psíquicos e corporais envolvidos na constituição da vida em civilização e na instituição do Estado (formas de viver que seriam contrárias aos instintos da vontade de poder).
Por último, a terceira dissertação (O que significam ideais ascéticos?) procura evidenciar o que se esconde por trás desses ideais, bem como os efeitos decorrentes da adoção de tais valores. Para Nietzsche, os valores ascéticos (como humildade, pobreza e castidade) resultam da transvaloração dos princípios nobres realizada pelo homem de ressentimento: o orgulho, a opulência, a riqueza dos nobres e guerreiros vistos como moralmente negativos. Através do triunfo da “moral dos escravos” no mundo moderno, os valores ascéticos estariam generalizados nos mais distintos domínios humanos (como na arte, na filosofia e na ciência).
Perscrutando tais ideais nesses diferentes campos de atividades humanas, Nietzsche demonstra que os valores ascéticos se efetivam – através da figura do sacerdote ascético – a partir da necessidade de sentido para o sofrimento e para o mal-estar que o homem de ressentimento padece. Assim, o sacerdote imputa, a esse homem, a culpa pelo seu próprio sofrimento (por meio da noção de pecado) e a possibilidade de redenção no próprio calvário.
Se o ascetismo religioso expressa uma vontade de poder dos escravos, dos plebeus, dos fisiologicamente inferiores, onde se encontraria uma vontade de poder que apresentasse um ideal contrário ao ascético? – indaga Nietzsche. Para o autor, os filósofos idealistas não representariam esse ideal antagônico, pois creem na verdade, são firmemente ligados na fé na verdade e renunciam à interpretação – o conhecimento enquanto realização de violências, omissões, falseamentos sobre o real. Nesse ponto, Nietzsche crítica com veemência a posição do homem enquanto sujeito de conhecimento a priori e exterior à realidade. Para Nietzsche, o saber humano estaria inserido e condicionado em específicos contextos de relações de poder, de onde decorreria o caráter relativo do conhecimento.
Também a ciência não apresentaria um ideal capaz de se contrapor ao modelo ascético. Para Nietzsche, ao se orientar metodologicamente como observação desinteressada sobre a realidade (negando o conhecimento como ação de forças ativas, destruidoras e interpretativas da realidade) e nutrindo a crença no valor da verdade, a ciência (sem a necessidade de um Deus religioso) mantém se no mesmo terreno do ideal ascético: a vontade de verdade, a busca por uma verdade eterna e imutável que estaria por trás da realidade, dinâmica e conflituosa.
Algumas repercussões de Genealogia da moral no pensamento sociológico
Genealogia da moral traz ainda inúmeras críticas à modernidade. Em uma delas, Nietzsche (2009, p. 29) nos alerta a respeito dos rastros de destroços (assassinatos, incêndios, violações) que a civilização pacificada vai deixando – curiosa semelhança com a crítica de Walter Benjamin (1985, p. 226) ao progresso, apresentada na tese do anjo da história que, embora construída por caminhos distintos, evidencia as trilhas da influência nietzschiana na intelectualidade alemã do século XX.
Não deixam de aparecer também comentários irônicos sobre a democracia enquanto preponderância das “raças doentes”, vitória do homem de ressentimento, produção do homem de “rebanho”, certo “ar de hospício” conferido ao mundo moderno (NIETZSCHE, 2009, p. 103).
Uma das originalidades de Nietzsche nessa obra situa-se em sua crítica mordaz aos pressupostos da teoria contratualista (teor semelhante se verá a partir da segunda metade do século XX, por exemplo, com Michel Foucault e Giorgio Agamben). Distante de qualquer suposição de acordo entre os homens, para Nietzsche, o Estado emerge, a partir da destruição e da violência, como desdobramento da vontade de poder, quando:
(…) algum bando de bestas louras, uma raça de conquistadores e senhores, que, organizada guerreiramente e com força para organizar, sem hesitação lança suas garras terríveis sobre uma população talvez imensamente superior em número, mas ainda informe e nômade. (NIETZSCHE, 2009, p. 69).
É possível compreender tais críticas à modernidade e à democracia situando Nietzsche no contexto cultural do Romantismo alemão do século XIX. Segundo Michel Löwy e Robert Sayre (1995, p. 19), o Romantismo pode ser entendido como uma resistência aos princípios iluministas e ao modo de vida na sociedade capitalista moderna, que se estende para além da literatura e das artes. Reação formulada no interior dessa própria civilização capitalista, o Romantismo caracterizou-se pela recusa da então realidade social, pela nostalgia melancólica e pela busca de certos valores humanos perdidos. Questão que fica para o leitor: Nietzsche se enquadraria, então, como um romântico conservador e reacionário, nostálgico do período anterior à modernidade ou está muito além de qualquer rotulação?
Na perspectiva de Nietzsche enquanto um romântico reacionário reside um dos pontos mais polêmicos da presença de Nietzsche nas ciências humanas: a recepção das obras de Nietzsche, pelo marxismo europeu na primeira metade do século XX, como ideias ultra aristocráticas. Ponto de vista adotado principalmente por Leon Trotsky e Georg Lukács (LOSURDO, 2009, p. 726). Já para o sociólogo marxista Marshall Berman (1986, p. 21), em obra dos anos 1980, tanto Nietzsche como Marx são vozes diagnósticas desse mundo europeu do século XIX, que passava por rápidas transformações e onde eclodiam ameaças em toda parte.
No tocante à teoria sociológica, as influências de Nietzsche foram marcantes. Cohn (1979, p. 7) destaca que “há uma figura singular no pensamento alemão em relação à qual as afinidades de Weber são nítidas: Friedrich Nietzsche”. As marcas de Nietzsche em Weber podem ser identificadas na reflexão weberiana sobre a questão da adesão a valores na produção do conhecimento histórico e social, no caráter radical de ausência de sentido intrínseco ao mundo e na compreensão da vigência de certos valores como expressão de dominação de grupos humanos sobre outros.
Na apresentação da edição brasileira de O processo civilizador, Renato Janine Ribeiro (1994, p. 10) aponta também a influência de Nietzsche nessa obra de Norbert Elias: a civilização dos costumes próxima, de certa maneira, a um adestramento do homem e o destaque para os custos físicos e psíquicos desse processo civilizador.
Destaca-se ainda um conjunto de influências nietzschianas nas obras do filósofo francês Michel Foucault: a valorização da corporalidade na maneira de Foucault conceber a relação entre a história, o poder e o sujeito; a crítica sobre a produção e o valor da verdade; a inspiração metodológica para a genealogia foucaultiana, entre outros pontos.
Enfim, vencida as dificuldades na leitura (devido à enorme concentração dos argumentos e a riqueza dos insights), Genealogia da moral revela-se como obra crucial em um debate sobre as influências e diálogos na constituição das teorias sociais do final do século XIX e ao longo do século XX.
Referências bibliográficas
BENJAMIN, Walter. As Teses sobre o Conceito de História. In:___________. Obras Escolhidas, Vol. 1. São Paulo, Brasiliense, 1985. p. 222-232.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
COHN, Gabriel. Crítica e resignação: fundamentos da sociologia de Max Weber. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin e Companhia das Letras, 2011.
LOSURDO, Domenico. Nietzsche: o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico. Rio de Janeiro: Revan, 2009.
LÖWY, M. e SAYRE, R. Revolta e melancolia: o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis, Vozes, 1995
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
RIBEIRO, Renato Janine. Apresentação a Norbert Elias. In: ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, p. 9-12.
Silvio de Azevedo Soares é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (UNESP, campus de Marília), coordenador executivo do Grupo de Estudos Saberes, Subjetividades e Poderes (GESP) e pesquisador do Observatório de Segurança Pública (OSP) da UNESP de Marília, silvioaz@hotmail.com, ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9867-6062





