Gabriela Andrade da Silva
Saidiya Hartman (1961 — ) é uma importante escritora e docente de literatura afro-americana, com enfoque em estudos sobre a escravidão e a experiência negra na diáspora. Em entrevista1 concedida para Fernanda Silva e Souza (2023), pesquisadora e Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), Hartman relata suas impressões acerca do contexto social, político e cultural da experiência negra no curto período em que esteve no Brasil no final de 2022 para eventos literários2. Destaca também sua relação com a literatura, algumas de suas principais obras3 e a sua percepção sobre o campo da produção do conhecimento, questionando a manutenção da hierarquização de saberes.
A autora primeiramente demonstra muito entusiasmo com sua estadia no país e destacou o desejo de retornar mais vezes, trazendo consigo outros intelectuais dos Estudos Negros, considerando o interesse em produzir mais trabalhos acerca da experiência de sujeitos/as negros/as em diáspora. Para além disso, indicou que há um certo “enclausuramento racializado no Brasil” (Silva e Sousa, 2023a, p.8) que impossibilita um desenvolvimento em maior escala de intelectuais negros/as e o contato com outros/as pensadores/as. Tal fenômeno afastou o Brasil de momentos importantes nos quais debates conjunturais que dizem respeito à posição dos/as negros/as na diáspora, em distintos contextos, emergiram. Para ela, sobretudo, “[…] o Brasil deveria ser um epicentro no pensamento diaspórico negro” (Silva e Sousa, 2023a, p.8), considerando a magnitude da população negra no país e seu histórico escravocrata.
Ainda referente aos questionamentos sobre sua experiência no Brasil, a autora ressalta que se sentiu perto da África na diáspora brasileira, especialmente quando lembrou-se da Festa de Santa Bárbara4, onde a celebração cultural e religiosa se transforma em um fio condutor que a conecta à presença de seus ancestrais:
Eu fui criada como católica, quem se importa com isso? Eu rejeito o Catolicismo. Mas então por que eu estou chorando na escadaria de uma igreja na Festa de Santa Bárbara? Porque algo mais está me chamando, um chamado que não é filtrado por um enquadramento analítico ou intelectual. (Silva e Sousa, 2023a, p.6)
A partir dessa fala, já é possível destacar a posição crítica da escritora ao enquadramento analítico promovido pelo âmbito acadêmico, que é essencialmente permeado por uma ordem hegemônica de produção de conhecimento. Vivências e saberes produzidos a partir de sujeitos/as que não estão em posições dominantes na sociedade frequentemente são questionados no processo de se produzir conhecimento científico, deslegitimando a autoridade epistêmica de diversos/as intelectuais. Hartman destaca que a universidade para uma mulher negra é um espaço de violência, bem como o mundo é, mas que há possibilidades neste meio e levar suas ideias adiante é primordial.
O modo como sua escrita crítica e criativa se desenvolve demonstra seu compromisso em abalar certas estruturas dominantes do meio acadêmico, considerando que a autora aponta para uma perspectiva alternativa de se produzir conhecimento: um método que não se pauta na epistemologia branca universalizada, compreendendo que as estruturas coloniais e escravocratas moldaram e ainda moldam a existência da população negra. Seu intuito é atingir justamente pessoas que não estejam imersas nas discussões acadêmicas, possibilidade concretizada através de sua obra Perder a mãe. Na entrevista ela afirma:
Eu não estou buscando aceitação. Eu quero estar em diálogo com pessoas que entendam que as estruturas herdadas de pensamento são o problema, com pessoas abertas para jogar fora todos os quadros existentes e explorar o que podemos fazer juntos. Descolonização é uma palavra para essa abertura. Esta é uma aspiração intelectual coletiva, um projeto esboçado no porão do navio ou no subterrâneo que vislumbra arranjos sociais e terrenos de outra ordem. (Silva e Sousa, 2023a, p.15)
A escritora endossa ainda que a academia tende para além de reproduzir um ordenamento rigoroso a ser seguido na elaboração de conhecimentos, delimitar quem e como tal conhecimento deve ser produzido. Sua crítica se direciona à maneira na qual, universalmente, é instituída uma produção de conhecimento baseada na hierarquização de posições e saberes.
Essa hierarquia de saberes criticada por Hartman, para Aníbal Quijano (2005), tem como ponto de partida o momento em que o capitalismo moderno/colonial forjou uma concepção de humanidade segundo a qual a população do mundo passou a se diferenciar em termos binários: inferiores e superiores, racionais e irracionais, primitivos e civilizados, tradicionais e modernos etc. Sobretudo, a primeira classificação universal verificada foi através da “raça”, seguida do “gênero”, consolidando uma humanidade essencialmente cindida.
A literatura decolonial compreende que a colonialidade possui tripla dimensão de dominação, a do poder, do saber e do ser. Neste viés, Quijano assevera que há uma fixação de novas intersubjetividades atravessadas pela violência colonial, nas quais os/as sujeitos/as colonizados/as incorporam em si perspectivas e saberes históricos que foram cristalizados enquanto naturais. A decolonialidade do poder surge então como alternativa para repensar novos paradigmas teóricos que sejam fundamentados em dimensões culturais e históricas construídos pelos próprios povos, partindo de suas singularidades, e visando ampliar caminhos para sair da armadilha epistemológica fortalecida durante séculos de exploração que mantiveram epistemes hegemônicas como universais.
Hartman dialoga com a abordagem decolonial para produzir sua escrita, que parte da fabulação crítica (Hartman, 2020) e consiste em desenvolver uma narrativa ‘com e contra’ o arquivo, tecendo imaginários daqueles que não podem mais falar. A autora não descarta a importância da disciplina historiográfica e do acesso ao arquivo para a escrita crítica e criativa. Seu ponto de partida é sua conexão ancestral, sua existência e vivência, inquietações que vão além da esfera intelectual e não podem ser respondidas por lacunas historiográficas e documentais, estas que são mediadas pela violência colonial:
É, então, apoiada em uma tradição negra radical e indisciplinar e colocando-se como uma descendente de escravizados que Hartman escancara os limites da história disciplinar no que diz respeito à possibilidade de escrever uma história da escravidão que torne as vidas dos escravizados passíveis de luto, isto é, perdas que podem ser lamentadas ao serem contadas de verdade como vidas (Butler, 2015), retirando-as, mesmo que em breves lampejos, das cenas de sujeição e morte (Silva e Sousa, 2023b, p.12).
Lila Abu-Lughod (2018) aponta, no campo da antropologia, o modo como o meio acadêmico mantém a cobrança de uma distância entre o/a pesquisador/a e o/a sujeito/a pesquisado/a, indicando que o/a intelectual “[…] é definido como um ser que precisa permanecer separado do Outro, mesmo quando ele ou ela procura explicitamente superar tal lacuna” (Abu-Lughod, 2018, p. 197). Hartman, embora em um contexto distinto, deseja não apenas contestar os pressupostos históricos inquestionáveis produzidos na Europa e no Ocidente acerca da população negra em suas pluralidades, mas também, coletivamente, produzir novas maneiras de “acontecer, emergir, se revelar” que não estejam “atadas a uma ordem de valores que está nos matando” (Silva e Sousa, 2023a, p.15).
Para as duas, o desafio enfrentado atravessa o mesmo núcleo: a objetividade da distância ao se produzir conhecimento é demonstrada como exemplo de rigor teórico e a proximidade com o “Outro”/sujeito/a de estudo é tratada como uma postura de parcialidade. Essa construção da submissão do “Outro” no meio acadêmico é fundamental para legitimar a ‘superioridade’ epistêmica da produção científica do conhecimento moderno. Deste modo, Hartman indaga: pode uma mulher negra “[…] pensar em algo que um homem branco não tenha pensado primeiro?” (Silva e Sousa, 2023a, p.13).
A escritora, durante todo o percurso da entrevista, assume uma posição de questionar aquilo que é hegemônico, do que é visto como universal e é inquestionável. Um destaque vai para a sua fala acerca do papel do Direito em situações em que o trabalho é identificado como análogo à escravidão. Segundo a autora, o ideal jurídico e o próprio Estado adotam uma posição nebulosa acerca das definições do que se compreende por escravidão, enquanto as consequências do sistema moderno-racional e as marcas coloniais permanecem incorporadas no corpo negro do passado, ao presente e ao futuro:
[…] quais são os elementos constituintes da escravidão? A escravidão é definida por uma condição de morte social? Não temos a mesma forma de capitalismo que era dominante no advento da Revolução Industrial, mas ninguém parece ter dificuldade de reconhecer que é capitalismo. E quanto às formas constitutivas da não liberdade negra que sustentaram esse projeto ocidental, esse projeto de modernidade, esse projeto de capitalismo racial? (Silva e Sousa, 2023a, p.20)
Hartman sinaliza o modo como o capitalismo é atualmente reconhecido em suas diferentes formas históricas, diferentemente das formas contemporâneas de não liberdade negra, que por séculos foram base para a manutenção desse projeto de modernidade capitalista/colonialista, seguem não nomeadas. O fundamento que opera na disputa sobre o que define a escravidão, se assemelha à disputa sobre quem produz conhecimento científico legítimo, ambos seguindo um ordenamento de hierarquização epistemológica. Esse processo desumaniza a existência histórica, política, social e cultural de sujeitos/as que foram marcados/as por estruturas de poder que continuam espoliando e violentando povos marginalizados.
Destarte, a entrevista como um todo enfatiza algo que para a Sociologia do conhecimento é de grande relevância: métodos científicos tradicionais e as disciplinas acadêmicas não operam através da suposta “neutralidade” tão exigida no campo, pois há uma lógica que guia a produção do conhecimento, construída e universalizada por um grupo dominante que constantemente reinventa modos de exercer poder sobre distintas epistemes. É em vista disso que tentativas de subverter a lógica dominante na produção do conhecimento são duramente criticadas, como apontado por Hartman em sua trajetória acadêmica. Ao evidenciar outras formas de se produzir conhecimento, a autora mostra que repensar a hierarquização de saberes se faz necessário não somente enquanto uma questão de método, mas também como um trabalho coletivo, visando observar o passado e o presente, tendo como horizonte a existência no futuro.
Referências
ABU-LUGHOD, Lila; REGO, Francisco Cleiton Vieira Silva do; DURAZZO, Leandro. A Escrita contra a cultura. Equatorial – Revista do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, [S. l.], v. 5, n. 8, p. 193–226, 2018.
COM TRÊS SÉCULOS de existência, Festa de Santa Bárbara simboliza fé e resistência do povo baiano. Secretaria de Comunicação de Salvador, Salvador, [s.d.]. Disponível em: https://comunicacao.salvador.ba.gov.br/com-tres-seculos-de-existencia-festa-de-santa-barbar a-simboliza-fe-e-resistencia-do-povo-baiano/. Acesso em: 29 jul. 2026.
HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 23, n. 3, p. 12–33, 2020.
QUIJANO, Aníbal. Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina . Estudos Avançados, São Paulo, Brasil, v. 19, n. 55, p. 9–31, 2005.
SILVA E SOUSA, Fernanda. “Eu não sou uma nota de rodapé para o pensamento de grandes homens brancos”: uma entrevista com Saidiya Hartman. ODEERE: Revista Internacional de Relações Étnicas, [S. l.], v. 8, n. 1, p. 1–23, 2023.
SILVA E SOUSA, Fernanda. Sem nomes e sem histórias, mas amados: a escrita da história da escravidão em Perder a mãe, de Saidiya Hartman. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 16, n. 41, p. 1–31, 2023.
Notas
1 Considero importante destacar que não segui a escrita dos parágrafos desse resumo de acordo todas as respostas estabelecidas no documento da entrevista, fui escrevendo a partir das falas que mais me chamaram a atenção, embora a entrevista integralmente é composta por troca de saberes extraordinários.
2 Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), e do seminário Poéticas e Políticas de Pesquisa em Educação, apresentando-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) — As cidade visitadas foram São paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
3 Perder a mãe, Vidas rebeldes e Scenes of Subjection.
4 A Festa de Santa Bárbara é uma celebração religiosa e cultural realizada anualmente no Pelourinho, em Salvador, que sincretiza o culto católico à santa com o culto a Iansã, orixá do candomblé. Segundo Elisangela Silva, presidente do Afoxé Filhos de Korin Efan — que organiza uma das tradições da festa há mais de duas décadas —, a data é significativa “porque, nós, enquanto instituição cultural negra com influência do candomblé, celebramos Santa Bárbara e também Iansã” (SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DE SALVADOR, [s.d.]).


